15/06/2013 09h38
A anticoncepção de emergência, mais comumente chamada de “pílula do dia seguinte”, é bastante conhecida e usada por adolescentes do ensino médio.
Uma pesquisa da Escola de Enfermagem (EE) da USP realizada em escolas públicas e particulares na cidade de Arujá (Grande São Paulo) com 705 jovens, entre 15 e 19 anos, aponta que 94,2% deles já ouviram falar da pílula e 57,7% já fizeram uso deste método contraceptivo.
O estudo também constatou que a maioria das vezes em que a pílula do dia seguinte foi usada (59,3%) foi associada a outro método.
Formada em obstetrícia, Christiane Borges do Nascimento, autora da pesquisa, se interessou pelo estudo dos métodos contraceptivos na adolescência ainda em sua graduação.
Segundo ela, a escolha por esse grupo foi porque “os adolescentes têm uma característica muito particular”. “Eles têm muitas alternâncias na estabilidade relacional”, relata.
A pesquisa foi constituída de um teste sobre o conhecimento da pílula do dia seguinte e de questões sobre seu uso entre os entrevistados, além de um questionário socioeconômico.
Sobre a utilização, 57,7% do total de adolescentes responderam já ter tomado o fármaco.
Essa porcentagem não variou significativamente entre os alunos de escola particular e pública, sendo a diferença entre esses grupos menor que 1%.
Este resultado, segundo Christiane, tem duas vertentes: “tem um lado bom, porque significa que os adolescentes estão se prevenindo de uma gravidez não planejada mas, ao mesmo tempo, pode indicar algumas descontinuidades contraceptivas.”
De acordo com a obstetriz, os jovens não fizeram uso abusivo da anticoncepção de emergência, já que metade deles usou o método apenas uma vez no último ano.
Na lista dos fatores que motivaram o uso está a insegurança, em primeiro lugar, com 31,6%.
O esquecimento em relação ao uso de outro método contraceptivo ocupa o segundo lugar, correspondendo a 27,1% das citações, enquanto 20,3% responderam que o outro recurso usado para prevenir gravidez falhou.
O questionário a respeito do conhecimento da contracepção de emergência era uma espécie de prova composta de dez afirmativas com as alternativas “Verdadeiro”, “Falso” e “Não sei”.
A quase totalidade dos alunos entrevistados (94,2%) já havia ouvido falar do fármaco. No entanto, a maioria não soube responder adequadamente às afirmativas.
Os pontos em que houve menor compreensão foi o tempo de eficácia da pílula após a ingestão e o período após a relação sexual até o qual ela pode ser usada.
“O nome da pílula do dia seguinte é um pouco ingrato”, considera a pesquisadora. “Às vezes a pessoa acha que só pode ser usada no dia seguinte à relação sexual, mas não.
Antes o Ministério da Saúde preconizava que ela só poderia ser usada até 72 horas, ou seja, até três dias após a relação sexual desprotegida”, descreve Christiane, ressaltando que “hoje já se sabe que ela pode ser utilizada até cinco dias após a relação”.
Os alunos de escolas particulares apresentaram maior número de acerto do questionário.
Durante a coleta de dados, a obstetriz aplicou oficinas nas escolas sobre os métodos contraceptivos, dando enfoque à pílula do dia seguinte, tanto para os alunos, quanto para os professores, que sentiram a necessidade de conhecer mais sobre o tema para responder aos questionamentos dos adolescentes.
Na pesquisa, constatou-se que 72,6% dos jovens nunca participou de palestra na escola que tratasse sobre a pílula.
A escola foi o segundo espaço de maior esclarecimento sobre o assunto, mas “não porque a escola dava instruções para os adolescentes, mas porque era um ambiente em que eles se encontravam e trocavam informações”, explica Christiane.
A maior fonte de conhecimento a respeito dela foram os amigos, totalizando 48,5%.
Em relação ao modo de obtenção da pílula do dia seguinte, 74,6% daqueles que já haviam utilizado compraram o medicamento em farmácias, contra apenas 6,8% que adquiriram nos postos de saúde.
Christiane comenta que muitos serviços de saúde ainda não disponibilizam, principalmente para o adolescente. Para ela, “ainda existe um conceito errado de que a pílula do dia seguinte é abortiva”.
Além disso, a sua distribuição ainda é escassa no estado de São Paulo, local em que foi feito o estudo.
O estudo da EE também aponta que as meninas apresentaram um conhecimento maior sobre o fármaco, pois, segundo Christiane, “ainda existe uma carga que a contracepção é ainda obrigação da mulher e também pelo fato de a pílula do dia seguinte ser de uso feminino”. (USP)