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22/09/2012 18h48 - Atualizado em 22/09/2012 18h48

Médico deve detectar uso de álcool e substâncias do paciente, diz pesquisadora

 
Flávio Verão
 
Jennifer McNeely, da Universidade de Nova York, esteve em Dourados (Foto: Flávio verão)

Detecção precoce para antecipar a intervenção é o conceito de um estudo desenvolvido pela professora doutora Jennifer McNeely, da Universidade de Nova York (NYU). “A ideia de fazer um diagnóstico de forma precoce deve ser feito por aquele médico que vê o paciente com mais frequência. Esse médico tem que perguntar o quanto esse paciente está bebendo, se ele faz uso de substâncias”, diz a pesquisadora.

Jennifer McNeely esteve em Dourados no final de semana passada e foi uma das palestrantes do III Simpósio de Neurociências da Grande Dourados, realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). O evento debateu o uso de drogas, a infecção do vírus HIV e as suas consequências para o cérebro e para o comportamento da pessoa.

A professora e pesquisadora Jennifer McNeely recebeu a reportagem do Dourados Agora juntamente com a professora doutora Elisabete Castelon Konkiewitz, da UFGD, o professor doutor Edward Ziff, da Universidade de Nova York, e o professor doutor Sergio Monteiro de Almeida, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o acadêmico de medicina da UFGD, Willian Pegoraro. Todos (exceto estudante) são médicos e ministraram palestras durante o simpósio, que reuniu acadêmicos e profissionais da medicina e de outras áreas da saúde.

Além de professora, Jennifer McNeely trabalha em um dos maiores hospitais de Nova York, nos cuidados de pacientes com HIV e dependência de substâncias. O foco do seu trabalho é integrar o tratamento da dependência química na atenção primária, desta forma o médico que atende a família também acompanha esse paciente. Segundo ela, se a detecção precoce e o tratamento ficasse restrito somente a especialistas como o psiquiatra, o sistema de saúde não conseguiria tratar todos os usuários de álcool e substâncias químicas.

De acordo com a pesquisadora, que desenvolveu um questionário para detectar o uso, a incidência do abuso de substâncias de forma prejudicial é tão grande quanto a incidência de diabetes, mais de 10%. Em razão desse grande índice ela desenvolveu um estudo para detectar o uso não saudável do álcool e de outras drogas em estágio precoce.

Quanto antes é feito a identificação melhor são as chances de prevenção, evitando a dependência do paciente. Jennifer explica que as pessoas que abusam de substâncias não conseguem fazer o tratamento de outras doenças de forma adequada, a exemplo da hipertensão, de problema cardíaco. “Elas não vão aderir ao tratamento e tudo isso vai acarretar maiores danos à saúde”, resume a pesquisadora.

Segundo ela, realmente, a detecção precoce feita pelo médico da família é o que pode evitar todos esses problemas de dependência. “Os médicos não psiquiatras ainda não incorporaram o questionamento sobre o uso prejudicial de substâncias em sua mentalidade, de questionar o paciente numa consulta de rotina”, disse ela, acrescentando que isso deveria ser um procedimento padrão, muito embora não é feito, nem nos Estados Unidos, bem como no Brasil.

“O médico pergunta ao paciente sobre a sua alimentação, se ele faz atividade física, mas não questiona com a sensibilidade necessária para detectar se aquela pessoa que ainda não é usuário dependente, para detectar se ela já está fazendo uso prejudicial do álcool e de outras substâncias”, explica a pesquisadora.

Os questionários que ela desenvolveu em sua pesquisa visam detectar os pacientes em diferentes situações de risco, para que as devidas atitudes possam ser alertadas. O mais grave, por exemplo, pode ser encaminhado para um serviço mais especializado, já aquela pessoa em estágio moderado, porém em risco, será motivada a ter hábitos mais saudáveis e será devidamente acompanhada. O paciente sem problemas, segundo ela, deve ser orientado sobre as consequências e risco do uso de álcool e substâncias.

O médico com todas essas informações pode estratificar o paciente, ou seja, definir a que grupo ele pertence, se o mesmo procurou atendimento por causa de uma doença, se ele já esta fazendo o uso prejudicial ou já tem um risco maior de dependência.

Com esse estudo a pesquisadora pretende, por meio do questionário, conseguir informações não só se o paciente está em risco, mas quantificar isto, com a noção de gravidade, para que o médico possa tomar as atitudes adequadas a cada um.

O questionário tem sido fundamental para estratificar a pessoa que chega todo o dia em casa e bebe uma garrafa de vinho ou três a quatro garrafas de cerveja e posteriormente ela vai ao médico. Nesse caso, dificilmente ela vai procurar um serviço de tratamento de dependência química, um psiquiatra, mas sim o seu médico, para tratar outros problemas de saúde. É esse profissional, segundo Jennifer McNeely, quem deve fazer a detecção precoce do uso de álcool e substâncias, para evitar agravos.

No Brasil um trabalho com a aplicação de questionário semelhante ao da pesquisadora Jennifer McNeely vem sendo utilizado pela professora doutora Roseli Boerngen de Lacerda, da UFPR. Ela também esteve no simpósio da UFGD.


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