05/06/2013 07h41 - Atualizado em 05/06/2013 07h41
Embora o uso de agrotóxico lidere, pesquisas ao emprego de um organismo que ataca outro nas lavouras começa a se destacar no país
Flávio Verão
A busca pela qualidade de vida nunca foi tão discutida como nos dias atuais. Praticar atividades físicas e comer alimentos saudáveis são recomendações muito bem difundidas entre a sociedade, principalmente quando se fala em frutas, verduras e legumes.
Mas um fator preocupante que tem chamado a atenção é o consumo inconsciente do agrotóxico, agregado nos alimentos e até na própria água. Uma alternativa para reduzir o uso demasiado de produtos químicos nas lavouras é o controle biológico, técnica pouco conhecida mas que faz grande diferença na manutenção do equilíbrio da densidade populacional de plantas e animais, na preservação do meio ambiente e na saúde da população.
O Brasil é o país que mais consome agrotóxico no mundo e um terço dos alimentos consumidos cotidianamente pelos brasileiros está contaminado por agrotóxicos, segundo apontou análise de amostras coletadas em 26 estados, em uma pesquisa realizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Essa mesma pesquisa mostra quais são os alimentos mais contaminados por agrotóxicos no país, destacando-se na primeira posição o pimentão (91,8%), seguido pelo morango (63,4%), pelo pepino (57,4%) e a alface (54,2%). Tudo isso levou a um cálculo que cada brasileiro consome em média cinco litros de agrotóxicos por ano.
Na contramão para reduzir essas estatísticas, pesquisas vêm sendo desenvolvidas para minimizar a utilização em larga escala de produtos químicos no combate às pragas das lavouras. O controle biológico é uma delas.
A técnica consiste no emprego de um organismo (predador, parasitóide ou patógeno) que ataca outro que esteja causando danos econômicos às lavouras. Trata-se de uma estratégia muito utilizada em sistemas agroecológicos, assim como na agricultura convencional que se vale do Manejo Integrado de Pragas (MIP).
Em Mato Grosso do Sul, entre outros estados do país, essa técnica é empregada principalmente na cultura de cana-de-açúcar e tem trazido excelentes resultados. No entanto, a falta de divulgação do método e de mão-de-obra qualificada, a disponibilidade de produtos biológicos nas revendas próximas do produtor e a tradição e confiabilidade no método do controle químico têm sido os principais obstáculos para o aumento da utilização do controle biológico.
O pesquisador e professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Fabrício Fagundes Pereira, diz que a falta de uma política nacional com definição de prioridades e investimentos nessa área também dificulta a ampliação de pesquisas e consequentemente a expansão do uso do controle biológico no país.
Engenheiro agrônomo com pós-doutorado em entomologia e especialista na grande área de controle biológico, Fabrício explica que o controle biológico é encontrado na natureza, na própria lavoura, como também seus agentes (predadores, parasitóides, fungos e bactérias) podem ser produzidos em laboratório e utilizados em agroecossistemas, visando a redução da população de organimos-praga.
O professor lembra que o controle biológico não substitui necessariamente a utilização de agrotóxico. “Tem situações em que os parasitóides uma vez liberados se encarregam de se estabelecer na vultura e causar a mortalidade dos insetos. Em outros casos, em cultivos comerciais, se diminui a quantidade de inseticidas sintéticos pela utilização de parasitóides, predadores ou bactérias entomopatogênicas”, explica Fabrício Fagundes Pereira.
O agrotóxico tem o papel de diminuir as perdas causadas por doenças, pragas e plantas daninhas, mas o grande problema é o seu uso abusivo e inadequado. De acordo com o pesquisador, os profissionais que conseguem vender por mês a maior quantidade de pesticidas são premiados.
Isto, aliado ao desconhecimento dos malefícios que os mesmos podem causar à saúde das pessoas, principalmente daqueles que os aplicam nas lavouras, são gargalos para a obtenção de alimentos livres de resíduos de agrotóxicos. A falta de fiscalização do uso desses produtos nas lavouras, por parte dos órgãos governamentais constitui-se em outro entrave.
O desconhecimento do produtor rural sobre os produtos existentes e sua composição, formas de utilização e descarte de embalagens vazias e a falta de assistência técnica também contribuem para o uso inadequado de agrotóxicos.
“A avaliação, o monitoramento, o treinamento das pessoas para conhecerem o inseto que causa prejuízo à lavoura é de fundamental importância”, explica Fabrício, acrescentando que em meio a plantação há o amigo oculto do agricultor, inseto que se alimenta daquele inseto que causa prejuízo, mas por desconhecimento o agricultor também o elimina. “Muitas vezes o próprio inseto já passou da fase de causar prejuízo, estando ali somente para cumprir o seu ciclo de vida, ainda assim o produtor aplica inseticida, sendo desnecessário”, pontua.
Monitorar a presença de insetos na cultura desde a sua implantação deveria ser fator primordial, para reduzir os prejuízos, porém muitos produtores só eliminam as pragas quando elas já causam prejuízo visível. “De nada adianta, também, o produtor seguir todo o protocolo em sua propriedade sendo que na lavoura vizinha os devidos cuidados não são tomados”, lembra Fabrício. Esse problema é mais crítico, principalmente na utilização do controle biológico, quando um produtor utiliza essa técnica e o vizinho não. O inseto-praga quando não é morto pelo inseticida sintético, se torna resistente ou migra para a cultura situada na propriedade vizinha, diz o pesquisador.
Orgânicos
O controle biológico já vem sendo utilizado em muitas culturas. Em Mato Grosso do Sul a técnica é bastante empregada no controle da broca da cana-de-açúcar e o investimento é mais barato em comparação a utilização de produtos químicos. De acordo com Fabrício, essa tecnologia já é produzida em larga escala no país, sendo utilizada por produtores da maioria dos estados que investem nesse tipo de cultura.
Embora essa técnica ainda seja considerada nova no Brasil, em países europeus e nos Estados Unidos é bastante conhecida pela população. Tantos os produtores quanto a sociedade em países desenvolvidos possuem mais consciência na produção e na aquisição de alimentos mais saudáveis, com menor quantidade de produtos químicos.
Nesses países, quando a pessoa pega uma bandeja com legumes e frutas em um supermercado, por exemplo, na embalagem consta a origem desse alimento e a forma como foi produzido. No Brasil não há essa especificidade. Embora os produtos orgânicos sejam mais recomendados, devido o cultivo não utilizar produtos químicos, encontrá-los nas feiras e mercados ainda não é fácil.
Outro detalhe é o preço, pois chegam bem mais caros na mesa do consumidor. Produtor da agricultura familiar, o pequeno agricultor, é uma excelente opção na hora de encontrar orgânicos, segundo o pesquisador Fabrício. “Dificilmente eles utilizam produtos químicos”, recomenda. “Outra sugestão, e isso já acontece na Europa, são comunidades de pessoas que se associam para comprar alimentos de produtores que cultivam orgânicos, cuja produção foi responsável”, ensina o pesquisador.
Na região de Dourados produtores de assentamentos rurais utilizam a cultura orgânica e grupos de pessoas já estão sendo organizados para adquirir alimentos somente deles.
