18/06/2013 09h37 - Atualizado em 18/06/2013 09h37
“As vozes de todos os atores ressoavam em uníssono, como um mantra, magnetizando-nos aos seus movimentos”
Rita de Cássia P.Limberti
Fui ao Teatro Municipal de Dourados assistir “Gota d’Água”, espetáculo com que nos presenteou Nill Amaral com três apresentações nos dias 10, 11 e 12 de maio.
O cartaz da peça, me chamou a atenção: dois latões de leite colocados em primeiro plano causavam um estranhamento em relação ao nome da peça: “Gota d’Água” – de cujas letras pendiam uma gota de sangue, e não de água, instaurando, de cara, a metáfora da trama. Vá lá que os latões são recipientes, que podem transbordar com uma gota... mas ... de leite? Tão branquinho em sua intransparência... A água é mais (ou menos?) que matéria... é um elemento... fiquei intrigada... que é este o melhor jeito de se entrar para ver uma peça...
As vozes de todos os atores ressoavam em uníssono, como um mantra, magnetizando-nos aos seus movimentos... conduzindo-nos a uma estesia cênica... os movimentos, as expressões, os gestos e o texto impecavelmente ambientado entre os bois e a riqueza/pobreza do Centro-Oeste, às “lavadeiras” daqui (sujeiras, as há em qualquer e toda parte...por isso é preciso sempre tanta água e tudo está sempre por uma gota...Tudo nos levou a degustar todos os sentidos, além da visão e audição (tão próprias e comuns na recepção da arte cênica), até mesmo o olfato (o cheiro do estrume, pudemos senti-lo),o paladar (saímos da peça com a boca amarga) e o tato ( pela metáfora de sentirmos na pele as misérias dos personagens.).
A narrativa seguiu fluida como a própria água... O cenário (cenário? eu diria composição cênica) era artesanal: tão verdadeiros quanto a atuação de cada um dos atores – em número reduzidíssimo: uma bacia, uma cadeira e os tais dois latões e a água... Ah, a água! Reveladora em sua translúcida transparência, mais que um elemento, um verdadeiro personagem a permear as cenas: a agredir, acariciar, purificar, estagnar, explodir.
Poderosa em seu estado líquido, foi explorada com maestria em todos os planos: ora ao rés do chão dentro da bacia, ora a deslizar no corpo dos atores, ora manipulada pelas lavadeiras... a produzir um efeito sonoplástico único, de fluidez, do deslinde das coisas e da vida.... De dentro da bacia, foi capaz de explodir a resistência de quem não se deixa esmagar, ao ser pisoteada pelo poder econômico e político de Creonte - efeito cênico primoroso, que, sob os pés da desesperada e passional Joana transmutou-se na metáfora da explosão de sua própria ira, do transbordamento incontrolável de suas antagônicas emoções.
A luz: um show à parte. componente essencial, acompanha cada gesto e movimento sem necessariamente estar presente em todos e, ao mesmo tempo, determina a direção do olhar, emoldurando cada cena de forma magicamente etérea: ora difusa, ora de uma incidência eloquente a emoldurar quem e a incidir sobre o quê? Sobre a expressão surda (pelo ódio) e arrebatada (pela paixão) da protagonista Joana, encarnada pela impecável Taianne Petelin, possuidora de uma carga dramática gigantesca; sobre as comadres lavadeiras: Rosi Leal, uma presença cênica vigorosa e convincente e Indira Brito, de uma introspecção impressionante; os irmãos Anunciato, ambos de uma expressividade admirável (talvez genética), ela, Isis, dona de um timbre vocal e uma afinação surpreendentes, ele, Carlos, capaz de falar só com o olhar; e Paulo Porto e Leandro Martins, cujas atuações transitam tão bem entre a virtude e a vileza que são capazes de despertar em nós sentimentos ambíguos de simpatia e repulsa.
Atrás (ou à frente) de todos esses brilhantes atores, temos a direção vigorosa e sensível de Nill Amaral, um profissional consagrado pelo próprio conjunto de sua obra, por uma estrada tão bem pavimentada por inúmeros trabalhos de peso, que vem agora nos brindar com esta montagem refinada, com uma pegada contemporânea sobre um texto que se declara cada vez mais atemporal. Nill já apresenta um “sotaque”, uma griffe em sua concepção cênica, com cenários extremamente minimalistas, carga dramática densa, focada nos atores, e linguagem visual de forte apelo metafórico, focada nos objetos.
Assim tivemos um espetáculo emocionante e envolvente, cujos primeiros momentos (do “mantra”) nos colocaram em “transe”, conduzindo-nos ao interior da realidade das cenas - que nada mais são do que simulacros-, caminho favorecido pela proximidade espacial. Nem me dei conta da passagem do tempo... acho que nem cruzei ou descruzei as pernas... Somente voltei a sentir meus pés assentes no chão com o trágico desfecho que põe fim à estória: tal qual Medeia, Joana mata os dois filhos e vai depositar seus corpos aos pés do pai, na hora de seu casamento com a filha de Creonte.
E... pasmem... os corpos das crianças mortas eram os tais dois latões... as duas crianças... mortas... parecidas... nenhuma outra linguagem conteria a carga sígnica dos latões vazios e amassados nos braços de Joana... depois depositados no chão...
Saí de lá com a cabeça cheia... de ideias... refletindo... sobre como as formas de dominação se inscrevem no âmbito da cultura, marcando os domínios do saber e controlando formas alternativas de poder... sobre como as lógicas de controle político são capazes de reproduzir e naturalizar significados, e como o teatro é capaz de fazer emergir, através de uma linguagem crítica, novas perspectivas de reconfigurações oriundas das margens e demandas minoritárias.
Voltei a olhar o folder... lá estavam os dois latões... não pude mais fitá-los com indiferença... tampouco os rostos dos atores estampados nas fotos... a ficha técnica, os agradecimentos... detive-me novamente no nome do Sr. Laerte: obrigada, Sr. Laerte, não pelos latões! Obrigada por sua presença tão genuína e plural nestas paragens, que inspira, sem o saber e de forma tão tocante, os fazedores de arte. Obrigada a todos os “laertes” que, como minúsculas gotas d’água, compõem o caldo de nossa cultura e de nossa memória. Dessa vez transbordou: foi a gota d’água!
Mestre e Doutora em Lingüística na Universidade de São Paulo (USP), pós doutora em Análise de Discurso na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
