02/05/2013 09h48 - Atualizado em 02/05/2013 09h48
Marinho construiu um espetáculo valorizando as palavras com delicadeza e fúria, preenchendo o palco do Municipal com brilho e competência
Maria Saluê*
Domingo, 21 de abril, dia que escolhi para assistir ao “Ultimato: O Poema Secreto de S.J.”, com concepção e atuação de Emmanuel Marinho e direção de Joel Pizzini, espetáculo contemplado com o Prêmio Rubens Corrêa de Teatro (FCMS), e que ofereceu em uma minitemporada, cinco apresentações gratuitas no Teatro Municipal de Dourados, uma ousadia...
O poema secreto de beleza foi revelado. Marinho construiu um espetáculo valorizando as palavras com delicadeza e fúria, preenchendo o palco com brilho e competência. Poeta e homem iluminado de teatro construiu sua babel com artistas talentosos e afinados com o trabalho proposto.
Antônio Porto, na direção musical e executando ao vivo um piano, violão e outros instrumentos, me fez pensar em uma ópera que explodia de encantamentos sobre um deserto de areia, marcado pela água fértil da arte - uma música - aguçando os sentidos, o olhar , o ouvir e o tátil. E era A/e era A de nada/e era nada/e era A de ar/ e era ar, era nada/ e era A de água/E era nada/ era ar/era água/ e era luz...era muita luz.
Me desculpem a brincadeira com as palavras bem esculpidas do poeta, mas a iluminação de Adriana Ortiz está fantástica, não por acaso ela foi indicada ao prêmio Shell/2012, de melhor iluminadora do Rio de Janeiro , desenhou uma luz simples e precisa, nos iluminando a alma.
Navegando por mares de cidades invisíveis e de aldeias imaginárias, ultimato vai tecendo a história de múltiplos Joãos, de São João Evangelista a João Lennon, passando por João Guimarães Rosa, João do Rio e muitos outros , toca a pele da história e do planeta com delicadezas. Um apocalipse de ideias e imagens, a devolução do pão velho com sutileza. Como diz o titulo da tese de mestrado de Jorgina Ortega, sobre textos de Emmanuel: Voz de veludo e dedo na ferida!
E é nas feridas da civilização, que ele faz o milagre da chuva, do mar e do batismo. A direção de Joel Pizzini, premiado e reconhecido diretor de cinema, parece brincar com o acaso, construindo imagens simbólicas e contundentes, mergulha num mar incerto e batiza outros territórios do olhar. Nill Amaral, respeitado estudioso e diretor de teatro, assina a assistência de direção e preparação de ator, dando corpo a atuação, indica novos caminhos e espaços para a criação.
No figurino, Tellumi Helen bordou os mitos de milhares de anos, construindo um pescador de almas. Viva São João!!! Viva a poesia e esses momentos que retornam.
Uma manhã esquecida de ontem e um espetáculo que vai brilhar sempre em minhas memórias.
Viva os segredos sagrados e profanos revelados nesta noite! Viva a arte e todos os artistas que compartilharam com Emmanuel Marinho para construir um trabalho fundamental, enredados com as mãos e com as digitais de consagrados artistas. Viva o bom teatro!
*Mestre em Literatura
