Publicado 01/07/2011 14h27

Crianças passam fome e frio em favela

Mãe corre riscos ao tentar aquecer a família com fogo em lata  dentro de casa. Fotos: Hédio Fazan 
Mãe corre riscos ao tentar aquecer a família com fogo em lata dentro de casa. Fotos: Hédio Fazan

Valéria Araújo

Em barracos de lona, cerca de 30 crianças passam fome e frio no bairro Brasil 500, em Dourados. As famílias sem teto, que já vivem em condições submanas, perderam até mesmo o chão, já que estão tendo que conviver com o alagamento dos barracos, provocado pela chuva. A água que invade as moradias leva esgoto e todo o tipo de dejeto e microorganismos causadores de doenças. Sem opções, crianças ficam descalças em meio a água fétida e nociva à saúde. Não há condições básicas de higiene.

Em meio a temperaturas, que esta semana chegaram a menos de 2 graus, a única opção para banho é uma mangueira que sai de uma ligação de água improvisada. Todas as crianças deixaram de ir esta semana para a escola e a volta as aulas só deverá acontecer quando o frio e a chuva derem uma trégua. O problema é que com a ausência nas aulas, as famílias correm o risco de perder benefícios como o Bolsa Família.

A preocupação de alguns pais sobre a evasão instantânea da escola, é que para algumas crianças esta seria a única refeição do dia. “Desde o início do ano estamos sem receber cestas básicas. Os alimentos que recebemos é proveniente do pouco que conseguimos adquirir com doações. O problema é que de alguns meses para cá, estas ajudas cessaram”, conta Vanderléia Batista Lima, a auxiliar de serviços gerais e mãe de dois filhos pequenos.

No barraco onde ela mora com os dois filhos, a mãe tenta aquecer a família desesperadamente. Ela pega uma lata, coloca pedaços de madeira e ateia fogo. A fumaça preta exalada é risco constante de intoxicação. “Não há outra alternativa. Nossas roupas estão todas molhadas. O chão está alagado. Não há agasalhos nem cobertores para enganar o vento forte que esfria e corta até a nossa alma durante a madrugada”, lembra.

A mãe chora ao chegar perto da panela. “Não há nada para cozinhar hoje. Recebemos alfaces de doação e é só o que tenho para oferecer as crianças”, lamenta.

A mesma realidade é vista nos barracos do lado. O servente de pedreiro Cid João Gonçalves Júnior, está desesperado. Ele tem uma filha de 11 meses. O bebê precisa de leite, alimentos e agasalhos. “Quando chove não há serviço para pedreiro, principalmente para quem é diarista. Sofro muito toda a vez que olho para a minha filha e vejo que nada posso fazer para mudar a realidade dela”, disse.

Leandro Parra de Campos, servente, também está desempregado em função do mau tempo. “Há cinco anos estamos lutando por uma moradia. Os conjuntos habitacionais saem, mas continuamos aqui, sem nunca ser contemplados. Em época de eleição somos vistos, mas depois de eleitos, nossos representantes esquecem dos mais pobres”, reclama.

ASSISTÊNCIA SOCIAL

A secretária de Assistência Social de Dourados, Ledi Ferla, disse ao O PROGRESSO e ao site Douradosagora que a prefeitura está mobilizando toda a sociedade para que faça doações para este e outros habitantes de 10 conjuntos de barracos espalhados na periferia de Dourados. Ela diz que a prefeitura comprou 1,5 mil cobertores que já estão sendo encaminhados às famílias e que os agasalhos arrecadados em parceria com a empresa Abevê Supermercados, serão entregues nos próximos dias.

A secretária pede para que toda a população ajude. Ela diz que disponibilizou todos os Centros de Referência (Cras) do município como ponto de arrecadação. Eles ficam nos bairros Cachoeirinha, Parque do Lago II, Água Boa, Canaã I, Jóquei e Aldeia Indígena.

Em relação à denúncia de corte da cesta de alimentos, a secretária esclarece que o que aconteceu é que a gestão atual encontrou o programa em fase de licitação e que há um mês o problema burocrático foi resolvido e as cestas já devem começar a ser entregues nas próximas semanas.

A Defesa Civil de Dourados também está atuando no intuito de remover famílias moradoras em barracos para a Casa da Acolhida. Lonas e cobertores estão sendo distribuídos de acordo com o que a prefeitura está conseguindo arrecadar em doações da população. O problema é que muitas famílias ainda preferem continuar nos barracos por medo de perderem o pouco que têm.

CAMPANHA

O PROGRESSO e o site Douradosagora lançam campanha para ajudar estas famílias. Quem tiver roupas, calçados e alimentos não perecíveis e quiser doar, pode encaminhar estes recursos para a sede deste matutino, localizado na Avenida Presidente Vargas, 447, centro de Dourados (em frente a Praça Antônio João), das 8h às 18h. Quem não puder encaminhar os produtos ao Jornal pode entrar em contato com o repórter Hédio Fazan, através do telefone: 9617.4976.

As fotos são de Hédio Fazan:

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