03/03/2013 15h28 - Atualizado em 03/03/2013 15h28
As Comitivas Pantaneiras existem há pelo menos 200 anos, coincidindo com o início do desenvolvimento da pecuária enquanto atividade econômica então embrionária no Estado de Mato Grosso. Poucas e precárias estradas dificultavam ao longo do século XIX até meados do século XX, o deslocamento das tropas, trabalho realizado pelos tropeiros ou boiadeiros, ainda não organizados em comitivas.
Somente no início do século passado os tropeiros começaram se estruturar em Comitivas, já que a pecuária, no mesmo período, ganhou status de atividade econômica relevante, principalmente com a chegada ao Estado de colonizadores. Porém, a abertura de estradas e a preferência pelo transporte do gado em caminhões causou certo impacto nas atividades das Comitivas.
Depositárias de crenças, culturas e costumes da gente da região, as Comitivas acumulam informações importantes adquiridas através contato com os forasteiros, especialmente turistas estrangeiros e de outros estados do País e dos meios de comunicação, com destaque nos últimos anos da TV, devido à presença cada vez mais ostensiva das antenas parabólicas até nos locais mais distantes do Pantanal.
O contato formal e sistemático com os integrantes, contratantes e mantenedores das Comitivas Pantaneiras – conhecedores profundos das características diversas da região – torna possível o resgate de informações valiosas quanto aos aspectos históricos, culturais e sociais.
De madrugada, os peões encilham as montarias (cavalos ou mulas). Na maioria das vezes, o número de animais, levados em uma Comitiva, para possibilitar que descansem, é, pelo menos, o dobro do de peões. Entrosamento entre cavaleiro e cavalo, na medida em que se acostumam um com o outro, tem grande importância.
Antes de pegar a estrada, os viajantes tomam café, chimarrão e às vezes guaraná em pó. Durante o percurso, para aliviar o calor, preferem o tereré. É um legado dos paraguaios e se tornou bebida típica dos pantaneiros. Há peões que só integram uma Comitiva se for oferecida a erva do tereré. Mas, para alguns condutores, esse costume é visto como uma maneira de “enrolar” o trabalho.
Após ouvirem as instruções do condutor, que segue atrás da boiada, ++carregando uma bandeira vermelha, os peões cavalgam em torno dos animais. A música Comitiva Esperança, de Paulo Simões, fala de locais e rios do Pantanal que os viajantes atravessam tocando a boiada: “Onde a Comitiva Esperança chega já começa a festança Através do Rio Negro, Nhecolândia e Paiaguás Vai descendo o Piqueri, o São Lourenço e o Paraguai”.
Clima, estrada, animais selvagens, doenças e humor da boiada interferem no passo da Comitiva.Ela segue lentamente ao som do berrante, estalos do arreador e gritos de peões. Esses, retrata Simões, no refrão da música, estão acostumados com longas marchas; sabem que viajar conduzindo bois requer paciência, qualidade visível no homem do campo, já que nesse local não está presente a agitação do dia a dia da cidade:
“Nossa viagem não é ligeira, ninguém tem pressa de chegar A nossa estrada, é boiadeira, não interessa onde vai dar...”.
Entre onze horas e meio dia, a Comitiva chega ao um local previamente combinado com o cozinheiro. Tendo saído algumas horas antes, ele a espera com o almoço pronto. O cardápio normalmente garante arroz, feijão, mandioca, macarrão e carne de sol ou charque. Há regras a serem seguidas durante a refeição, algumas delas baseadas em higiene, outras em superstição. Quem as desrespeita paga prendas (castigos), a serem utilizadas para a próxima alimentação dos viajantes, em geral, galinha, carneiro ou leitoa. Depois do almoço, os peões, cansados e sonolentos, têm o costume de tirar a sesta.
Outro trecho de Comitiva Esperança descreve a alegria da chegada de uma Comitiva em fazendas onde os proprietários costumam receber bem os peões: “Tá de passagem, abre a porteira, conforme for pra pernoitar.Se a gente é boa, hospitaleira, a Comitiva vai tocar Moda ligeira, que é uma doideira, assanha o povo e faz dançar, oh moda lenta que faz sonhar...”
Apesar de passar os dias na estrada, o que se supõe estar longe da rotina, a vida dos peões não é fácil. Além de todos os contratempos que enfrentam na viagem e da falta de dinheiro, ainda passam muito tempo longe da família, tocando boiadas.
O Pantanal é cortado por muitos rios e, na época da cheia, entre novembro e março, eles transbordam, alagando grande parte da região. Comitiva Esperança mostra que, nesse período, certos locais têm que ser abandonados: “É tempo bom que tava por lá; nem vontade de regressar; só vortemo eu vô confessá; é que as águas chegaram em janeiro; descolamos um barco ligeiro; fomos pra Corumbá.”
Nessa época, os grandes rios se tornam obstáculos para as Comitivas. Ao chegar à margem de um deles, quando dá pé para o animal, o peão atravessa montado, do contrário ele nada ou segue em canoa. Na época da cheia, a travessia é arriscada, muitos animais morrem afogados. Quando a travessia é muito difícil, algumas vezes, os peões nadam, a fim de que a boiada os siga. Mas, colocar um sinuelo (boi líder) à frente dos animais é mais comum, atualmente.
Estrada de Chão, composição de Aurélio Miranda, reflete a tristeza com que um boiadeiro, talvez desempregado ou mesmo aposentado, fala dos instrumentos de trabalho, que hoje pouca utilidade têm.
“Meu par de esporas, meu laço e arreio; que há tempo no meio das traias guardei/ Meu velho berrante enfeita a Sala/ E ao lado as medalhas que colecionei/Meu cavalo baio relincha no pasto/ Sentindo o desgaste que o tempo lhe fez...”
Outro descontentamento de condutores e peões é a redução do trabalho nas Comitivas. Após a inauguração da Noroeste do Brasil e da Transpantaneira, o gado passou a ser transportado também em trens e caminhões. A poesia de Aurélio Miranda retrata o ressentimento dos boiadeiros, em relação à chegada do asfalto ao Pantanal.
“Estrada de chão o seu tempo se foi; cadê a peonada poeira e bois; cobriram de preto a estrada de chã e mais preto é o luto do meu coração; o passado morreu, só ficaram lembranças; e morre comigo a doce esperança, de ainda se ouvir, nas encruzilhadas; o berrante tocando, chamando a boiada.”
Recorremos a trechos de composições de Paulo Simões e Aurélio Miranda, artistas radicados no Estado, que tão bem traduzem em suas canções o universo nostálgico dos peões boiadeiros, heróis sofridos do Pantanal de Mato Grosso do Sul.
