23/05/2013 17h42 - Atualizado em 23/05/2013 17h42
Flávio Verão
“Temos que lutar para colocar negros nos mais diferentes cargos e assim buscarmos a igualdade. Não penso que o movimento negro seja a solução. Sou um brasileiro, negro, descendente de africanos e é assim que ultimamente tenho agido. Não quero saber se a pessoa é branca, negra, eu quero saber se é uma boa pessoa, de caráter, e que tenha bons propósitos”. Essa é a declaração do ator Milton Gonçalves ao falar sobre o negro na teledramaturgia, atividade em que muitas vezes eles são retratados em personagens de escravos, faxineiros e criminosos.
O ator global esteve nesta quinta-feira em Dourados para participar da abertura da Mostra Audiovisual de Dourados (MAD), evento produzido pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e que vai até domingo. Milton Gonçalves recebeu a imprensa no hotel em que esteve hospedado, atendeu fãs e falou um pouco do seu trabalho. O diretor dramatúrgico Luiz Antonio Pilar também participou da Mostra.
Gonçalves diz que já foi “raivoso” por não entender a relação política, econômica, ideológica e comercial da teledramaturgia. Hoje, ele acredita que avançou nesse aspecto porque agora já tem opinião formada. “O IBGE mostra que o negro, parentes e afins representam 52% da população brasileira. Sendo assim há certa carência em algumas posições sociais de participação do negro, e na teledramaturgia não é diferente”, disse ele.
Para o ator, grupo de teatro negro ao invés de criar personagem específico para negro, deveria criar papeis para todos e o negro deve aceitar qualquer trabalho. “A última peça de teatro que eu fiz no Rio, O Diário de Anne Frank , eu interpretei um personagem judeu e a minha família na peça era branca”, exemplificou, ressaltando esse choque porque o espectador percebeu que não tem diferença entre as raças, pois só existe uma, a humana. “Socialmente há uma barreira mas nós [negros] temos que quebrá-la, e isso é feito quando marchamos contra essa barreira”, sintetizou Milton Gonçalves.
Para o diretor Luiz Antonio Pilar, o que falta nos grandes produtores da cultura de massa (eixo São Paulo-Rio) é o aproveitamento da representação do povo, do popular. “Prova disso é a novela Salve Jorge da Rede Globo que mostrou o morro do Alemão, do Rio, com os personagens Pescoço (Nando Cunha) e Maria Vanúbia (Roberta Rodrigues). Foi um sucesso porque é a representação do povo brasileiro, independente se eram negros ou brancos e essa representação reponde com audiência e a novela foi sucesso”, explica o diretor.
Ao ser perguntado sobre que dica daria para um ator do interior conquistar espaço no eixo São Paulo-Rio, Pilar foi enfático: “o artista tem que priorizar o local de onde veio. Talento não é tudo e numa escala de um a três estaria em último, pois estudo e vocação é fundamental. Talento se não tiver desenvolve depois. Mas se tiver vocação e um bom embasamento teórico o artista conquista espaço”.
Outro ponto fundamental, segundo ele, é não abrir mão de contar a história regional. “Num mundo globalizado a particularidade da pessoa é fundamental. O que vai aproximar Dourados do Rio é o que se produz em cada cidade. O ator do interior não deve se considerar inferior, pois o que é novo, diferente e vem com verdade sempre vai chamar a atenção, isso é o que queremos, que o interior se revele”, exemplificou Pilar.
