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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Perda de diversidade genética aumenta risco para o mogno

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21/10/2021 15h07 – Por Embrapa Acre

Pesquisadores da Embrapa Acre e de instituições parceiras identificaram perda significativa de diversidade genética em plantas jovens de mogno (Swietenia macrophylla).

A pesquisa confirma a vulnerabilidade dessa espécie florestal, bastante valorizada no mercado brasileiro de madeiras, mas que consta na lista de espécies ameaçadas, e sugere novas estratégias para melhorar o trabalho de manejo e garantir a sua conservação.

O estudo publicado no periódico Forest Ecology and Management foi realizado em uma área manejada da Floresta Estadual do Antimary, localizada no município de Sena Madureira, estado do Acre.

O trabalho de campo envolveu a identificação e mapeamento de 83 árvores adultas, com diâmetro mínimo de 43 centímetros, em uma área de 1.650 hectares, e 187 árvores juvenis, em um raio de 20 quilômetros.

Análises realizadas no Laboratório de Biologia Molecular da Embrapa Acre, a partir de amostras de tecidos das plantas, avaliaram gerações da espécie (plantas adultas e juvenis) e a estrutura genética espacial de árvores adultas, para verificar o potencial de variabilidade genética do mogno e possíveis anomalias na reprodução da espécie.

A pesquisadora Tatiana de Campos, uma das autoras do estudo, explica que a extração do DNA da planta, associada ao uso de marcadores moleculares, permite verificar o fluxo gênico: a transferência de informações genéticas entre indivíduos de uma mesma população ou espécie, por meio do parentesco observado entre seus descendentes.

A técnica também possibilita averiguar o comportamento do polinizador da espécie, além de determinar a ocorrência de cruzamento aparentado. Essas informações são essenciais para ampliar o conhecimento sobre o sistema de reprodução do mogno e de outras espécies florestais.

“Identificamos a paternidade das plantas juvenis e os níveis da taxa de fecundação cruzada. Além da perda de diversidade genética, no material avaliado constatamos a presença de endogamia, problema também conhecido como consanguinidade, que evidencia a reprodução entre indivíduos geneticamente semelhantes.

Esses fatores mostram uma redução na presença de alelos, ou seja, na capacidade de transmissão de informações genéticas no processo de reprodução natural do mogno, aspecto que fragiliza a sobrevivência da espécie”, enfatiza a cientista.

Pesquisas moleculares e conservação da espécie

Alexandre Sebbenn, pesquisador do Instituto Florestal de São Paulo (IF), considera necessário agregar aos planos de manejo ações de monitoramento da diversidade genética e dos padrões de reprodução das espécies florestais, por meio de avaliações de amostras coletadas antes e após o corte seletivo, com uso de técnicas moleculares.

“Tais procedimentos podem possibilitar intervenções como o plantio de mudas na área manejada e sugerir adequações nas regras de manejo atualmente vigentes”, declara, enfatizando que esses estudos ainda são escassos.

“Entretanto, eles são um diferencial importante para compreender o processo de regeneração natural das espécies e para conferir maior sustentabilidade ao manejo florestal”, acrescenta.

Tatiana de Campos destaca, ainda, a importância das pesquisas com uso de técnicas moleculares para detectar outras anomalias na dinâmica de reprodução de plantas, como as mutações genéticas, que podem colocar as espécies em risco.

“No caso do mogno, conhecer a variabilidade genética da espécie é primordial para a definição e adoção de diretrizes mais eficazes para a sua conservação”, diz.

Esforço para salvar o mogno

Reconhecido mundialmente como uma madeira nobre, devido a características como estabilidade, duração, facilidade de ser trabalhada e aspecto castanho-avermelhado brilhante (depois de polida), o mogno pode ser utilizado na fabricação de móveis sofisticados e instrumentos musicais, na construção civil e indústria naval entre outras aplicações.

De ocorrência natural em florestas tropicais, no Brasil é encontrado no Acre, Pará, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins.

Com baixa densidade populacional – menos de uma árvore por hectare – essa espécie florestal tem alto valor comercial e grande aceitação no mercado internacional.

Estudos anteriores sobre a dinâmica de desenvolvimento do mogno estimam que devido à exploração indiscriminada restam apenas 20% dos estoques iniciais dessa madeira na América do Sul.

Com a redução da população da espécie, iniciativas envolvendo organismos nacionais e internacionais resultaram em medidas para proteção do mogno.

Desde 2008, a árvore integra a lista oficial das espécies da flora brasileira ameaçadas de extinção, na categoria vulnerável.

Além disso, foi incluída na Lista Vermelha de espécies ameaçadas de extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN).

Embora o mogno seja uma espécie ameaçada, de acordo com Instrução Normativa do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em vigor desde 2015, planos de manejo florestal prevendo a exploração da espécie podem ser aprovados e executados.

Como critérios para a exploração de espécies florestais em situação de vulnerabilidade, a legislação recomenda a manutenção de pelo menos 15% do total de árvores existentes na área manejada, respeitando o limite mínimo de quatro árvores a cada 100 hectares.

Para Sebbenn, essas aberturas na legislação, envolvendo o manejo de espécies florestais em risco, reforçam a necessidade de incluir em planos de manejo estudos genéticos sobre os impactos da exploração seletiva e seus efeitos na regeneração da floresta e nos estoques futuros de madeira oriunda de espécies de alto valor comercial.

“Pesquisas com essa finalidade ainda são pouco conhecidas e precisam ser consideradas como aliadas das normas de exploração, como forma de proteger as espécies”, avalia.

A engenheira florestal Sabrina Oliveira, também autora do artigo publicado, reforça em sua pesquisa de mestrado, sobre a diversidade e estrutura genética do mogno, que mesmo seguindo critérios de sustentabilidade, o corte seletivo em planos de manejo aumenta os riscos de extinção da espécie.

“O mogno é dependente do cruzamento aleatório e realizar o manejo sem considerar esse aspecto reduz o número de indivíduos (árvores) na floresta, prejudicando o padrão de diversidade genética e a sua capacidade de repassar informações genéticas. Preservar a população existente é condição primordial para manutenção da espécie”, defende.

Estratégias para conservação da espécie

A Embrapa Acre desenvolve pesquisas sobre regeneração de espécies florestais há mais de 20 anos, por meio de parcelas permanentes de exploração madeireira, na Floresta Estadual do Antimary.

Esses estudos também têm investigado a dinâmica de regeneração natural do mogno em áreas manejadas.

Segundo o pesquisador Marcus Vinício d’Oliveira, por ser uma espécie pioneira, para se regenerar o mogno necessita de grandes aberturas na floresta, pois a árvore não se desenvolve bem em áreas de mata fechada, com pouca incidência de luz.

Por essa razão, praticamente não são encontradas plantas de pequeno porte em florestas da Amazônia brasileira.

“Nossa expectativa era que as clareiras abertas na floresta (estradas, pátios, trilhas de arrastes), em função do manejo madeireiro, poderiam potencializar a regeneração natural do mogno, considerando que em locais abertos a chance de sobrevivência da espécie é maior.

Mas percebemos que essas áreas não favoreceram de forma significativa esse processo, uma vez que identificamos um número reduzido de plantas jovens.

O baixo surgimento de mudas também representa fator de risco para a sobrevivência da espécie e isso nos levou a buscar os estudos genéticos para entender melhor o seu comportamento reprodutivo”, explica d´Oliveira.

O cientista conta que as pesquisas sobre a regeneração natural do mogno confirmaram a fragilidade da espécie evidenciada nos estudos moleculares.

Os resultados mostraram que árvores adultas apresentam boa variabilidade genética, enquanto as mais jovens carregam traços de endogamia.

Isso reforça a necessidade de adoção de práticas silviculturais, como a regeneração artificial do mogno, por meio do plantio de mudas em áreas de clareiras, onde a chance de sobrevivência da espécie é maior.

Essa prática pode contribuir para tornar o manejo sustentável e reduzir riscos de desaparecimento”, enfatiza d’Oliveira.

De acordo com Tatiana de Campos, o mogno está entre as espécies que apresentam biologia reprodutiva com alta variabilidade genética.

A árvore possui diferentes tipos de um mesmo gene (segmento do DNA responsável pelas características herdadas geneticamente), o que significa que para gerar descentes e sobreviver, precisa de fecundações entre indivíduos distintos.

A pesquisadora defende que o conhecimento sobre a estrutura genética espacial, sistema reprodutivo, fluxo gênico e níveis de diversidade genética é essencial para compreender os efeitos do corte seletivo e a sua influência sobre a dinâmica populacional de uma espécie.

A partir dessas informações é possível apoiar tanto a conservação e preservação das árvores matrizes em florestas manejadas quanto o cultivo de mudas para a formação de bancos de germoplasma.

Essas estratégias podem viabilizar tratamentos silviculturais em áreas de manejo e apoiar programas de reflorestamento e melhoramento genético de espécies arbóreas com algum valor agregado, incluindo o mogno”, afirma.

Outro caminho indicado pela pesquisa para modificar a situação de vulnerabilidade do mogno é a inserção de doadores de pólen, com maior riqueza de alelos, em populações naturais com declínio significativo da diversidade.

Além das práticas silviculturais, técnicas modernas como o uso de códigos de barra molecular (DNA barcode), que possibilitam a identificação de madeiras exploradas de forma ilegal, podem fortalecer as ações para conservar a espécie.

“As informações geradas pela pesquisa representam uma importante ferramenta de apoio na elaboração de políticas públicas voltadas para a melhoria do manejo de espécies florestais madeireiras em situação vulnerável ou em risco de extinção.

Mecanismos legais são fundamentais para assegurar a sobrevivência do mogno e de outras árvores de importância econômica na Amazônia”, completa Tatiana de Campos.

O mogno está entre as espécies ameaçadas e pesquisa confirma sua vulnerabilidade - Foto: Tatiana de Campos

Câmbio vascular, o tecido para extração do DNA, em tubos com solução tampão para a conservação do material genético - Foto: Simony Hechenberger

Câmbio vascular, o tecido para extração do DNA, em tubos com solução tampão para a conservação do material genético - Foto: Simony Hechenberger

Talho no tronco para retirada do câmbio vascular, o tecido para extração do DNA - Foto: Sabrina Oliveira

Em virtude da exploração indiscriminada restam apenas 20% dos estoques iniciais dessa madeira na América do Sul - Foto: Tatiana de Campos

Análise genética em laboratório, para extração do DNA - Foto: Jefferson Christofoletti

Planos de manejo incluem plantio de mudas - Foto: Tatiana de Campos

Na foto, o pesquisador da Embrapa Acre Marcus Vinicio Neves d'Oliveira e o assistente Airton do Nascimento Freitas, durante trabalhos de monitoramento - Foto: Tatiana de Campos

Sabrina de Oliveira durante trabalhos de pesquisa - Foto: Tatiana de Campos

Pesquisador Marcus Vinicio Neves d'Oliveira, da Embrapa Acre, e Sabrina Oliveira, mestranda e uma das autoras do artigo - Foto: Tatiana de Campos

Foto: Tatiana de Campos

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