Doenças cardiovasculares matam uma pessoa a cada dois minutos

Em Mato Grosso do Sul, 4,2 % da população é portadora de algum tipo de alteração cardíaca

Fumar narguilé por uma hora seguida corresponde ao consumo de tabaco de 100 cigarros

02/08/2018 06h34 - Por: Maria Lucia Tolouei


 
Médico cardiologista Frederico Somaio Neto Médico cardiologista Frederico Somaio Neto

Mato Grosso do Sul ocupa o 9º lugar em relação à incidência de doenças cardíacas e, segundo o IBGE, 4,2 % da população é portadora de algum tipo de alteração cardíaca.

De acordo com o cardiologista Frederico Somaio Neto há uma prevalência de fatores de risco em pessoas acima de 18 anos com a ocorrência de gordura no sangue, num percentual de 25%; para sobrepeso e obesidade, por erro alimentar, de 50%; para tabagistas, 17%; com o consumo de álcool, 24%; por sedentarismo, acima de 45% e diabetes, 8%.

O cardiologista lembra que, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), fumar narguilé é uma porta de entrada para a dependência de nicotina e o consumo de outras formas de tabaco. Risco para o coração!

Um estudo realizado pelo IBGE em parceria com o Instituto Nacional do Câncer (INCA) concluiu que fumar narguilé por uma hora seguida corresponde ao consumo de tabaco de 100 cigarros. "Assim, o uso pode levar ao aparecimento de doenças cardíacas e respiratórias, além de também desencadear a dependência", alerta Somaio.

Pesquisa nacional de saúde alimentar relacionada ao consumo de carne com excesso de gordura, leite integral, refrigerantes e doces, avaliando faixas etárias acima de 18 anos, nível de instrução, raça e área de habitação, aponta que o costume alimentar de carne com excesso de gordura era maior entre os homens de 25 a 39 anos, com nível de instrução fundamental completo e médio incompleto, habitantes da área rural e que o Mato Grosso do Sul é o campeão nacional nessa modalidade.

O médico cardiologista Frederico Somaio Neto é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), doutor em Ciências pela Unifesp, especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Ele é um dos cardiologistas que participaram da primeira cirurgia cardíaca em Dourados, em setembro de 1994. Confira a entrevista.

Qual é o percentual da população cardiopata? Em que ritmo essa progressão vem ocorrendo?

As doenças cardiovasculares (DC) são a primeira causa de morte no Brasil sendo, com isso, consideradas um grave problema de saúde pública, incidindo em cerca de 30% população, propiciando um alto custo neste setor. São responsáveis por 30% de todas as mortes na população brasileira acima de 30 anos de idade, representando segundo Ministério da Saúde uma taxa anual de 350 mil mortes, o que corresponde a uma morte a cada dois minutos, sendo o sul e o sudeste responsáveis pelas maiores taxas do país.

Porém, estudos mostram uma tendência de queda nesta taxa de mortalidade no Brasil. Esta queda deve ocorrer pelo combate aos fatores de risco para as DC como o tabagismo, dislipidemias, obesidade e sobrepeso, sedentarismo, dieta pobre em vegetais e frutas, uso de álcool, estresse psicossocial e controle de doenças como hipertensão arterial e diabetes mellitus. Nosso foco maior de atuação na prevenção das DC é sobre estes fatores de risco modificáveis, contribuindo forma eficaz para a diminuição de sua incidência.

Quais os fatores determinantes e que posição ocupa o MS no contexto das cardiopatias?

MS ocupa o 9º lugar em relação a incidência de doenças cardíacas, segundo o IBGE, onde 4,2 % da população é portadora de algum tipo de alteração cardíaca. Com a prevalência de fatores de risco em pessoas acima de 18 anos com a ocorrência de dislipidemia (gorduras no sangue) em 25%, sobrepeso e obesidade em torno de 50% por erro alimentar, tabagistas 17%, consumo de álcool em 24%, sedentarismo acima de 45% e diabetes em 8%.

O narguilé criado na Índia no século 16, sendo popular em países do sudeste asiático, do norte da África e do mediterrâneo Oriental, é uma porta de entrada para a dependência de nicotina e o consumo de outras formas de tabaco. O alerta é da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Um estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Instituto Nacional do Câncer (INCA) concluiu que fumar narguilé por uma hora seguida corresponde ao consumo de tabaco de 100 cigarros. Assim, o uso pode levar ao aparecimento de doenças cardíacas e respiratórias, além de também desencadear a dependência.

Quanto à alimentação em nosso estado, foi realizada uma pesquisa nacional de saúde alimentar relacionada ao consumo de carne com excesso de gordura, leite integral, refrigerantes e doces, avaliando faixas etárias acima de 18 anos, nível de instrução, raça e área de habitação. Constatou-se que o costume alimentar de carne com excesso de gordura era maior entre os homens de 25 a 39 anos, com nível de instrução fundamental completo e médio incompleto, negros, habitantes da área rural e que o Mato Grosso do Sul é o campeão nacional nessa modalidade, observando que não fica muito atrás dos outros estados também nas demais modalidades.

Como detectar sinais de doença cardíaca, em crianças, jovens e adultos?

A maior parte das crianças com cardiopatias leves não tem qualquer sintoma e a doença é suspeitada geralmente pelo médico pediatra numa observação de rotina. Estas podem apresentar dificuldade para ganhar peso, respiração rápida, infecções respiratórias frequentes, dificuldade respiratória (com coloração azulada das mucosas (boca, língua), cansaço aos esforços e posição de cócoras (crianças mais velhas descansam muitas vezes em posição de cócoras após esforços).

Em relação aos adultos citamos alguns sintomas mais frequentes e que servem como sinal de alerta para procurarmos a avaliação médica que são: falta de ar e cansaço acima do normal aos esforços ou mesmo em repouso. Dor ou desconforto no tórax aos esforços e principalmente quando em repouso sem outra causa conhecida que justifique como traumas etc. Desmaio ou tonturas. Aceleração no coração. Edema (inchaço) nas pernas dentre outros. Estes sinais podem estar presentes em outras doenças mas cabe ao médico descartar estas outras possibilidades pelo exame clínico e laboratorial.

Hipertensão, um dos fatores predisponentes à doença cardíaca, atinge que fatia?

De acordo com o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIigitel) de 2017, a prevalência de hipertensão autorreferida passou de 22,6% em 2006 para 24,3% em 2017. A pressão alta tende a aumentar com a idade, chegando, em 2017, a 60,9% entre os adultos com 65 anos ou mais.

A prevalência entre os idosos (65 anos ou mais de idade) até 10 vezes maior do que entre os adultos jovens (18 a 24 anos). Em 2011, por exemplo, a prevalência foi de 5,4% para jovens e de 59,7% para idosos o que chegaria a uma incidência media em torno de 35% na população geral. Nem MS, nos indivíduos pesquisados em um estudo, 69% tinham conhecimento da doença, sendo que destes, 57% estavam em tratamento, dos quais seguindo o quadro geral no pais apenas 20% estavam controlados.

Qual a razão da pressão alta precoce? Como detectar?

Peso corporal e a circunferência abdominal são os maiores determinantes para alteração dos níveis pressóricos, porém, a maioria dos casos de hipertensão em crianças é secundária a outras doenças ou anomalias congênitas.

Consumo de álcool e outras drogas, anabolizantes, entre outros, que papel têm nas ocorrências de hipertensão e demais doenças?

O cigarro e o narguilé, o consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, assim como o uso de anabolizantes são fatores de risco para o surgimento das doenças. Como já foi dito, estes produtos e seus metabólitos agem modificando a estrutura cardiovascular devido a sua toxicicidade.

Muito comum entre uma parte da população, trocar o dia pela noite pode acelerar o processo de uma cardiopatia?

A troca do dia pela noite é fator estressor, pois altera o ritmo circadiano, modificando a secreção de cortisol, hormônio do crescimento, insulina, entre outros; gerando alterações no metabolismo que constituem fatores de risco para doenças cardiovasculares. Este risco é comparável ao oferecido por outros fatores de risco.

Que orientações o senhor daria a alguém que deseja se manter em forma, boa saúde e baixo risco para doenças cardíacas?

Hoje estamos conectados com o mundo e um volume de informações que nos proporciona acessos aos avanços das ciências, porém, devemos ressaltar que deva existir um extremo cuidado com os chamados fake news, prometendo milagres a curto prazo, o que não existe.

A orientação é simples: a) alimentação saudável ingerindo quantidades adequadas de alimentos de todos os grupos atendendo as necessidades de equilíbrio metabólico do corpo. b) exercício regulares adequados a cada pessoa observando suas necessidade e respeito as sua dificuldade. c) ser avaliado em períodos também adequados aos seus parâmetros. d) dormir bem. e) e principalmente sorrir muito junto aos familiares e amigos.

Dourados é referência em cardiologia no Estado. O que se faz hoje, nos hospitais locais em termos de cardiologia, ou seja, quais os principais serviços de ponta?

Nossa cidade possui centros de tratamento de alta complexidade em cardiologia onde são realizados procedimentos de diagnóstico como cinecoronariografia (cateterismo), angiografia cerebral, arteriografias renal e periférica, estudo eletrofisiológico, ressonância e angiotomografia.

São realizados procedimentos de cirurgia cardíaca, implante de marca-passo cardíaco. Pela chamada cardiologia intervencionista procedimentos de angioplastia e implante de stent para o tratamento de doenças de artérias coronarianas, cerebrais, renais e periféricas e tratamento de doenças de origem congênitas. Na arritmologia a ablação para tratamento das arritmias cardíacas.

Qual é o diferencial e quais os avanços do setor em relação às décadas anteriores?

Nos anos 70, já tínhamos cardiologistas atuando na cidade, na década de 80 algumas unidades de terapia intensiva, foi na década de 90 que implantamos o primeiro serviço de Hemodinâmica e cirurgia cardíaca que marcou de forma definitiva Dourados como centro de referência em cardiologia.

O senhor é um dos cardiologistas que participaram da primeira cirurgia cardíaca em Dourados. Conte um pouco deste história.

Tudo ocorreu no inicio dos anos 90 quando eu, Dr. Raul Espinosa, Dr. Samuel Hemarson, Dr. Fernando Gouveia juntamente com o Dr. Mauro Rogerio Vanderlei (hemodinamicista) e Dr. João Jazbik (cirurgião cardíaco) ambos de Campo Grande, arrendamos a antiga Cardioclinica e fundamos o Instituto Douradense de Cardiologia (IDC) em 1993. Construímos a primeira hemodinâmica, adequamos o centro cirúrgico e montamos a UTI para suporte pós-operatório de cirurgia cardíaca.

Em 28 de junho de 1994 foi realizado o primeiro cateterismo e em 1º de setembro de 1994 realizamos a primeira cirurgia cardíaca com sucesso, evento que completará 25 anos em 2019.

No inicio dos anos 2000, o IDC deixou de existir passando a administração para HC. Nestes quase 25 anos, nos três centros em operação, já foram realizados mais de 30.000 cateterismos, mais de 15.000 tratamentos intervencionistas e mais de 3.500 cirurgias cardíacas.

Considerações finais

Concluindo, entendemos que houve em nossa cidade e região, um grande avanço no tratamento e prevenção das doenças cardiovasculares nas ultimas décadas não somente pela implantação de serviços de alta complexidade, como também pela vinda de novos profissionais e a implantação da Faculdade de Medicina. Por outro lado sabemos que o caminho a percorrer ainda é muito longo e as ciências da saúde tem muito a evoluir em todas as áreas.



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