"Mais que estética, beleza é atitude e retidão de caráter"

Segundo o médico cirurgião plástico João Alberto Gusman, cada um tem sua estrutura física única e, simplesmente, não se pode fazer de alguém uma outra pessoa

25/09/2018 07h00 - Por: Maria Lucia Tolouei


 
oão Alberto Gusman: entender as limitações das técnicas cirúrgicas e do próprio corpo é o caminho para evitar frustrações oão Alberto Gusman: entender as limitações das técnicas cirúrgicas e do próprio corpo é o caminho para evitar frustrações

Beleza é relativa. Para cada cultura, época e estado de espírito, uma estética própria. A verdade é que, simetria perfeita simplesmente não existe e pequenas diferenças causam maior equilíbrio às formas. Segundo o médico cirurgião plástico João Alberto Gusman, cada um tem sua estrutura física única e, simplesmente, não se pode fazer de alguém uma outra pessoa.

"A beleza é mais do que a percepção de formas esteticamente harmônicas. Entendo-a como um complexo de atitudes, retidão de caráter, compaixão e bondade, enfim como valores espirituais que se sobressaem em relação aos meros aspectos físicos", diz.

Para João Alberto Gusman, entender as limitações das técnicas cirúrgicas e do próprio corpo é o caminho para evitar frustrações. "Por que ter somente um padrão do que é belo, num mundo com tanta diversidade? Toda pessoa tem sua própria beleza, que é um reflexo da luz do nosso Criador, tornando-nos únicos e belos aos olhos de Deus", pondera o especialista.

O médico cirurgião plástico João Alberto Gusman é formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1988, fez residência em cirurgia geral e cirurgia plástica no Hospital Governador Israel Pinheiro (HGIP-Ipsemg), é especialista pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, associado da Sociedade Americana de Cirurgia Plástica (SACP) e atende na Clínica Life Center em Dourados.

Confira a entrevista:

Maria Lucia Tolouei: Como o senhor define beleza?

João Alberto Gusman: A beleza, na minha opinião, é mais do que a percepção de formas esteticamente harmônicas. Entendo-a como um complexo de atitudes, retidão de caráter, compaixão e bondade, enfim como valores espirituais que se sobressaem em relação aos meros aspectos físicos. Com certeza, percebo mais beleza na postura de figuras como o Papa Francisco do que em artistas cujo único atributo é a efêmera beleza fisica. Cada idade tem sua beleza, não sendo essa, um privilégio apenas da juventude.

Nem sempre é possível atender às expectativas de pacientes, por conta das distorções em relação à imagem. Como lidar com isso?

O importante é ser bem honesto com os pacientes, alertando-os quanto às limitações dos procedimentos. Cada pessoa tem uma estrutura física única, com pele, músculos e gordura com apresentações ímpares. Não existe possibilidade de se fazer um procedimento para que você se pareça com alguém famoso, ou alguma pessoa que admira. Entender as limitações das técnicas cirúrgicas e do seu próprio corpo é o caminho para se evitar frustrações.

Associa-se beleza à simetria. Mas, há casos em que traços mais fortes são marca pessoal. Como aliar estética à naturalidade?

Eu, pessoalmente, gosto de estruturas harmônicas. Porém, a simetria perfeita, em biologia, simplesmente não existe. Pequenas assimetrias causam maior equilíbrio às formas. Um exemplo claro é quando, com auxilio do computador, nós duplicamos as metades da face, com resultados dessas faces idênticas, muito mais desagradáveis do que da face normal.

O que muda nos procedimentos estéticos de agora?

A tendência é para procedimentos menos agressivos e com resultados mais naturais, visando principalmente a segurança dos pacientes.

Conceito de beleza é relativo, em diferentes cultura e épocas. O que vem pela frente?

Realmente, os padrões de beleza do Barroco, com as pinturas de Rembrandt e Rubens mostram corpos que hoje seriam considerados fora dos padrões. Na década de 70, modelos como Twiggy desfilavam corpos macérrimos. Creio que a tendência futura seja a aceitação e o respeito às diferenças. Por que ter somente um padrão do que é belo, num mundo com tanta diversidade? Mais do que seguir padrões, devemos procurar uma maior aceitação dos nossos corpos, buscando a cirurgia plástica apenas para se sentir melhor, dentro de sua própria realidade.

Quando se fala em cirurgia plástica, vem à mente os procedimentos radicais. O que há de novo? Tem espaço para todo público e bolso?

Com certeza, a popularização da cirurgia plástica a tornou mais acessível. Penso que procedimento seguros e consagrados pela literatura médica devem ser a meta dos bons profissionais. Nada de aventuras radicais, pois não devemos arriscar a saúde e segurança de nossos pacientes.

Cada vez mais pessoas jovens estão em busca do corpo perfeito e apelam a todo tipo de artifício: dietas radicais, esforço físico e fármacos em excesso. Quais os riscos?

Riscos para saúde existem, com uso de drogas que aumentem massa muscular, elevando o risco de câncer e doenças endocrinológicas. O ideal é sempre verificar junto ao Conselho Regional de Medicina a especialização do profissional que for consultar. Sempre consulte um endocrinologista para ter a melhor orientação.

Neste caso, faz-se necessário acompanhamento interdisciplinar. As pessoas aceitam isso ou cobram resultados imediatos?

Não existe milagre, os resultados rápidos cobrarão um preço alto na saúde das pacientes num futuro não muito distante.

Obesidade é epidemia mundial e atinge cada vez mais pessoas antes da maturidade. O que recomenda?

A recomendação de segurança da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica é que se evite de operar pacientes acima do peso, pois existem riscos maiores em relação a anestesia, a cicatrização e aumento de risco de infecções.

Quais as medidas de prevenção para a estética saudável?]

Procure orientação com especialistas em endocrinologia, nutrição e mantenha uma rotina de atividades físicas regulares.

Como a família, escola e mídia podem contribuir para educar crianças e jovens mais confortáveis com a própria imagem e acabar com o bullying?

O respeito às diferenças deve ser iniciado em casa, não é regra que, para que alguém seja feliz, tenha que ser magro, alto e ter olhos ou cabelos claros. O bullying, na verdade, parte de um jogo de dominação e submissão, onde a pessoa que ofende se sente tão intimidada pela diferença alheia que parte para agressão como forma de cobrir seu sentimento de insegurança e inferioridade. Toda pessoa tem sua própria beleza, que é um reflexo da luz do nosso Criador , tornando-nos únicos e belos aos olhos de Deus. Quem ofende alguém por alguma diferença, na verdade ataca a própria beleza da criação.

Considerações finais:

O importante é que o paciente sempre procure um especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, lembrando que mais importante do que um resultado perfeito, é um resultado feito com segurança.



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