Pesquisadores e indígenas denunciam danos do garimpo ilegal à saúde humana

26/04/2019 12h04 - Por Agência Câmara Notícias


 
Cleia Viana/Câmara dos Deputados / Audiência pública debater a mineração da região do Rio Tapajós no Estado do Pará
Audiência da Comissão de Meio Ambiente discutiu os impactos da mineração ilegal na região do rio Tapajós Cleia Viana/Câmara dos Deputados / Audiência pública debater a mineração da região do Rio Tapajós no Estado do Pará
Audiência da Comissão de Meio Ambiente discutiu os impactos da mineração ilegal na região do rio Tapajós

Audiência da Comissão de Meio Ambiente discutiu os impactos da mineração ilegal na região do rio Tapajós Pesquisadores e indígenas denunciaram na terça-feira (23), na Câmara dos Deputados, os danos do garimpo ilegal à saúde humana.

O tema foi debatido em audiência pública da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Estudos do Ministério da Saúde e da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) constataram níveis elevados de metilmercúrio na população do entorno da bacia do rio Tapajós, uma das maiores da Amazônia.

Naturalmente, o solo da região já concentra altas doses de mercúrio. A forma mais tóxica, metilmercúrio, surge por meio de processos químicos de bioacumulação agravados por desmatamentos, queimadas e, principalmente, pelo garimpo clandestino de ouro.

O neurocirurgião Erick Jennings Simões, da Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, mostrou um quadro com os resultados da contaminação na população que bebe a água e consome os peixes ao longo do rio Tapajós.

Os resultados foram obtidos por meio de exames em amostras de sangue e de cabelo.

"O que chama a atenção é que não só lá no alto Tapajós tem alta concentração de metilmercúrio no cabelo, mas na foz também.

O que se está fazendo lá em cima afeta quem mora, por exemplo, em Santarém", disse Simões.

"A gente já detectou alterações cardiológicas e neurológicas em pessoas que têm alto nível de metilmercúrio.

Infelizmente, não existe um tratamento que cure: é só um tratamento de reabilitação, terapia ocupacional e tentar eliminar a exposição dessas pessoas ao mercúrio", afirmou.

Outros problemas graves – como alterações na tireoide e no sistema imunológico – costumam ter diagnóstico tardio, décadas após a contaminação.

Além disso, o metilmercúrio consegue atravessar a placenta, podendo causar danos irreversíveis ao feto.

Líder na Terra Indígena Sawré Muybu, Alessandra Korap contou o drama da população diretamente atingida por essa contaminação no médio Tapajós. "Infelizmente, a gente tem que beber essa água: é a única água barrenta que a gente vive bebendo.

Com as mulheres grávidas, antigamente não tinha aborto espontâneo e agora está tendo. Tem que estar direto no hospital.

Crianças com dor de barriga. E o que dizer do peixe? Todo dia nós comemos peixe e não vamos deixar de comer peixe, se não vamos morrer de fome porque a única fonte [proteica] que temos é o peixe", declarou.

Garimpo ilegal

Só em 2018, a Polícia Federal fez três grandes operações para coibir o garimpo ilegal na região. O delegado Gecivaldo Ferreira informou que os policiais tentam conter tanto a extração quanto o transporte e a comercialização do ouro clandestino.

Segundo Ferreira, o volume de lama despejado no rio Tapajós pela mineração ilegal está em torno de 7 milhões de toneladas por ano.

Representante da Agência Nacional de Mineração (ANM), Glauber Cosenza admitiu que, sem recursos e sem estrutura, a fiscalização é falha.

"Hoje em dia, no Tapajós, se libera por meio de áreas licenciadas em torno de 5 toneladas de ouro oficialmente.

Não oficialmente, são 30 toneladas. Então, não se trata de um problema do estado do Pará. A questão do Tapajós é nacional", disse Cosenza.

Em Belém, a ANM conta com apenas 10 fiscais para atender todo o Pará e o Amapá. Só em Itaituba (PA), uma das maiores cidades às margens do rio Tapajós, mais de 18 mil pedidos de permissão de lavra garimpeira aguardam análise da agência.

A deputada Joenia Wapichana (Rede-RR) citou outros casos de garimpo clandestino e grave contaminação em terras indígenas, como a dos Yanomami.

Ausência no debate

Organizador do debate, o deputado Nilto Tatto (PT-SP) criticou o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Fundação Nacional do Índio (Funai), que foram convidados para a audiência pública, mas não enviaram representantes.

"Não é uma situação isolada. É uma situação que está generalizada e tende a piorar com o Ministério do Meio Ambiente completamente subordinado à agenda do agronegócio e diante da Funai, que perdeu completamente o seu papel", afirmou Tatto.

De imediato, os pesquisadores do Ministério da Saúde e da Universidade Federal do Oeste do Pará defenderam o monitoramento clínico e laboratorial das populações submetidas à contaminação de mercúrio. Para eles, trata-se de "urgência sanitária".

 
Cleia Viana/Câmara dos Deputados / Audiência pública debater a mineração da região do Rio Tapajós no Estado do Pará. Ativista Indígena, Alessandra Korap Silva
Alessandra Korap: Cleia Viana/Câmara dos Deputados / Audiência pública debater a mineração da região do Rio Tapajós no Estado do Pará. Ativista Indígena, Alessandra Korap Silva
Alessandra Korap: "Com as mulheres grávidas, antigamente não tinha aborto espontâneo. Agora, está tendo"

Envie seu Comentário