Douradenses Adotados - Isaac Duarte de Barros Junior*

Prosseguindo a minha caminhada saudosista pelas ruas douradenses de outrora, dobrando as esquinas do passado meu olhar voltou a lobrigar o antigo perímetro urbano, tempo quando ele era formado por velhas casas de madeira. Então, revi pessoas e com elas surgiu na poeira do tempo o gaúcho Artidor Lima. Esse homem, de nome excêntrico, morava próximo da antiga prefeitura, após vender sua propriedade na colônia federal. Admirava o presidente Getulio Vargas, Jango e Pasqualini, destacados políticos sulinos. Como brizolista, foi um dos fundadores do PDT no município. Na revolução de 1964, ficou preso na companhia do João Totó Câmara, Harrison Figueiredo, Raphael Bianchi e outros políticos militantes do PTB recolhidos pelos "revolucionários" na cadeia da avenida central que leva o nome do caudilho de São Borja. Sua filha Alba Terezinha Lima, foi eleita miss Mato Grosso. Getulio Lima, outro de seus filhos, imortalizou a voz num famoso disco de vinil chamado "os melhores da música jovem matogrossense". Entre os inesquecíveis moradores daqueles dias pioneiros, viveu o obeso Walter baiano. Personalidade conhecido como vendedor dos bilhetes lotéricos, calças largas corte cintura alta em linho branco, usava-as quatro dedos acima do umbigo. Sempre impecável na sua vestimenta, vaidoso circulava pela cidade com uma pasta debaixo do braço, abarrotada de jogos da sorte que oferecia aos passantes. Sua parada preferencial era defronte da "a agrícola", estabelecimento comercial de ferragens, propriedade do sorridente Alberto Perdomo. Ás vezes, esse nordestino simplório, circulava pela calçada da "pedra" passeando na frente do Bar Lucchesi, prédio próximo do cine ouro verde. Walter construiu sua residência de madeiras, na Rua Rio Grande do Sul (atual Weimar G. Torres). Depois da sua morte lá funcionou o bar "bye bye Brasil", uma chopperia com som ao vivo, de propriedade do violeiro Nildo Pacito. Recentemente esse antigo casarão, construído pelo carpinteiro Francisco Claro nos anos cinquenta, foi demolido. Naquela pequena formidável população pioneira, conheci também o Pedro tintureiro. Ele era um ex-jogador do operário, time de futebol que o Londres Machado foi goleiro. Buscando e entregando roupas finas no domicílio dos fregueses, Pedro estava sempre de bom humor. Ouvinte do Sultan Rasslan na rádio clube de Dourados, sempre sabia dos acontecimentos. Embora eu fosse locutor daquela emissora, um dia ele me surpreendeu, contando que na noite anterior a dona Geni Milan havia trocado socos com o médico Áureo Ribeiro, num desentendimento na formação da nova diretoria do clube social local. Nessa ocasião, quase houve tiroteio, porque essa temida senhora, assassinada anos depois numa churrascaria, sempre portava o seu revólver municiado na bolsa. Porém, passado esses desentendimentos entre os sócios mais exaltados, o jovem Walter Brandão da Silva foi eleito presidente por aclamação e as duas chapas concorrentes fizeram as pazes realizando um baile. Certamente entre as pessoas aqui residentes naquela época, existiram milhares de forasteiros, verdadeiros douradenses adotados. Lugar onde viveram, trabalharam e morreram. Todos foram personalidades idealistas, migrantes que nos deixaram levando os costumes do século vinte. Formados na universidade da vida, jamais votaram em aventureiros, principalmente com discursos de apologia a pobreza. Diferentes no sistema de inteiração a respeito do processo eleitoral, os candidatos a prefeito e vereadores eram analisados pelas condutas passadas ou presentes entre aqueles eleitores. Nesse tempo não existiam votos comprados e analfabetos possuíam o acomedimento de manterem-se afastados dos pleitos, jamais se candidatando a cargos eletivos. Votar em alguém, somente por ser evangélico, estava fora de cogitação. Assim, peço em memória deles: ‘senhores políticos processados, parem com procrastinações, sejam sensatos renunciando seus mandatos. Isto, se ainda lhes resta um pingo de vergonha na cara!’

*advogado criminalista, jornalista. e-mail: isane_isane@hotmail.com