Valfrido Silva *Pego carona no tema de palestra que fiz ontem no Clube Indaiá durante a assembléia festiva que marcou os...
Valfrido Silva *Pego carona no tema de palestra que fiz ontem no Clube Indaiá durante a assembléia festiva que marcou os 20 anos da Sicredi Centro Sul para pinçar um pouquinho de nossa história e traçar um paralelo entre duas palavras que têm tudo a ver com o processo de desenvolvimento da região. Uma, que nem consta dos dicionários, mas muito em voga ultimamente para definir o entorno do homem moderno e arrojado. Outra, que assusta pelo poder de dominação de mercados, açambarcando os menos afortunados, nem por isso também arrojados: empreendedorismo e monopólio.
É "chic no úrtimo" falar hoje em empreendedorismo. Qualquer um vira empreendedor do dia pra noite. Em certos tipos de negócios acontecem verdadeiros milagres, principalmente quando se trata de alguns empreendedores ligados ao setor público. E não é pra menos, nesta era digital, quando tudo se resolve num clique de computador ou numa ligação de telefone móvel, esteja onde estiver o cidadão, no banheiro, na estrada, no avião ou na fazenda. Para os mais afeitos ao trabalho, com tanta tecnologia à disposição, com satélites monitorando tudo e informando com exatidão ao homem do campo o dia e a hora em que vai chover ou cair uma geada, tudo também está mais fácil. Também na tela do computador o fazendeiro moderno conta seus bois e visita suas terras, através do Google Earth.
Agora, imagine ser empreendedor no final do século XIV, quando os negócios eram fechados no fio do bigode e o transporte de mercadorias feito em carros-de-boi ou através de chatas pelos rios das bacias do Ivinhema e do Amambai. Assim foi alavancado o desenvolvimento da Grande Dourados, a região um dia conhecida como a Califórnia brasileira, graças ao empreendedorismo de um cidadão cuja origem gera dúvida entre os historiadores e que, com o fim da guerra do Paraguai, implantou nesta região o monopólio da erva mate. O jornalista corumbaense Rubens Aquino garante que ele era gaúcho de Bagé, o historiador Hélio Serejo o tem como catarinense. Já para o jornalista e historiador douradense Isaac de Barros Junior o homem era argentino. Isaac conhece muito bem essa história, já que seu avô, Izidro Pedroso, o primeiro gaúcho aqui chegado foi por ele trazido. Thomás Larangeira (com g, mesmo) era padeiro em Porto Alegre quando estourou a guerra com o Paraguai. Apresentou-se como voluntário às forças aliadas, vindo servir víveres na área de combate. Terminada a guerra, sem ter o que fazer, integrou a comissão de fronteira criada com o tratado de paz, quando percebeu que os grandes ervais nativos da região poderiam se transformar num rentável negócio. Foi dado como tresloucado, por insistir num empreendimento daquela envergadura numa terra onde só existiam índios. Fez parceria empresarial com o comendador argentino e industrial ervateiro Francisco Mendes Gonçalves e convidou para seu sócio ninguém menos que Joaquim Murtinho, o médico cuiabano à época ministro da Fazenda do governo Campos Sales. E a companhia Mate Laranjeira virou um império, com mais força política que o próprio Estado do Mato Grosso, onde detinha concessão exclusiva para exploração dos ervais.
O monopólio da Companhia Mate Laranjeira acabou quando falou mais alto o espírito nacionalista do presidente Getúlio Vargas, que correu com ela daqui, fazendo um contraponto com a implantação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados. A Colônia foi cortada em oito mil lotes de trinta hectares, doados principalmente a nordestinos, os chamados paus-de-arara, começando assim um novo modelo de desenvolvimento, com o surgimento de vários municípios nesta região. Mais tarde o governo militar, através do projeto de assentamento Sete Quedas, fez a ocupação das terras devolutas do Conesul, antes pertencentes ao filho de madame Linch, a toda poderosa amante do mariscal Solano Lopez. Era o início do boom da soja na região, na virada da década 1960 para 70, com a chegada da segunda leva de gaúchos, catarinenses e paraenses.
Pena que agora, quando começa uma nova era de desenvolvimento, com o boom da cana-de-açúcar, o Brasil não tenha um Getúlio Vargas para fracionar mais os negócios no campo, possibilitando a sobrevida do empreendedorismo local, já ameaçado pelo monopólio de multinacionais e de bancos. * jornalista (www.valfridosilva.com)