Coisas que me incomodam - Manoel Marques Cardoso*
Uma senhora, dessas endinheiradas, torrou na Gucci do shopping Iguatemi, que fica na região dos Jardins, em São Paulo a bagatela de R$. 200.000,00 em casacos de pele, de couro e outras peças na "pré-venda", ou seja, antecipou-se para manter exclusividade em suas roupas. Uma cliente comprou um vestido Cavalli, pelo preço de R$. 37.900,00, de cujo modelo só vieram 4 da Itália, vestiu-o no réveillon e durante a festa jogou-se na piscina com o vestido e no dia seguinte pediu outro. Simples assim! Como tenho que fazer acompanhamento de obras por toda Dourados, circulo desde bem cedo pelos quadrantes da nossa cidade, presenciando coisas que realmente me entristecem, causando-me algum incomodo pela forma como nossas crianças estão sendo tratadas.
Num destes dias muito frios, estava trafegando pela Rua Coronel Ponciano, num trecho em que a Sanesul estava realizando obras quando presenciei uma senhora transportando uma criança com menos de três anos sentada na garupa da bicicleta, agarrada à cintura da mãe. Como os braços da menina não conseguiam atingir a circunferência da cintura da mãe, a fragilidade com que se segurava era muito grande. Mas o que realmente me entristece é o fato daquela criança, na fragilidade daquele transporte, estar sentada sobre os ferros da garupa da bicicleta, uma crueldade pelos solavancos que a mesma sofre diretamente em seu corpo que se agravavam pela irregularidade do solo provocada pelas obras no local. Custaria colocar pelo menos uma almofadinha para amenizar o sofrimento daquela criança.
Numa dessas manhãs, também fria, estava transitando por uma estrada que advém da minha chácara e dou de cara com uma carroça, cheia de índios adultos e crianças, umas seis pessoas lotando aquele precário transporte, que a principio se destina a pequenas cargas e não a pessoas, especialmente crianças de dois ou três anos. Nos dois cantos da carroça, uma criança de cada lado que em pé ficavam apenas com a cabeça para fora, ou seja, deviam ter no máximo cinqüenta centímetros de altura, por aí, podemos deduzir a idade delas. Todos sabemos que essas carroças são de uma grande precariedade, puxadas por animais trôpegos, fracos pela alimentação pobre que recebem, até porque, os índios não têm condições de ter coisa melhor e lutam com o que dispõem.
Li no Progresso um dia destes que uma determinada ONG aqui de Dourados, cuja origem desconheço, mas um articulista deste jornal, também índio e advogado, deixou claro que o uso da verba de Seis milhões de reais estava tendo uma destinação que poderia ser muito melhor se o leque dos participantes de um evento ocorrido numa aldeia tivesse a participação de mais pessoas, possivelmente, mais bem preparadas para direcionar de forma mais racional referida verba. No rol da destinação desse dinheiro poderiam incluir uma linha de ônibus que fizesse aldeias-cidade e vice versa, pelo menos quatro vezes por dia, proporcionando uma forma mais segura e confortável para a locomoção de adultos e crianças indígenas ou não.
Além do fato de dar oportunidade aos índios e índias que tiverem vontade participar de diversas atividades profissionais nos mais diversos campos, aproveitando a boa aptidão que eles têm para inúmeros trabalhos, hoje em grande oferta em vários segmentos. Essa mesma ONG poderia oferecer gratuitamente as cadeirinhas para transportar crianças pequenas que são mais confortáveis e seguras, além de tirar famílias que vivem debaixo de lonas em situação degradante. Esses fatos nos deixam desconfortáveis quando estamos dentro de nossos veículos assistindo a forma cruel como vivem muitas pessoas, sejam elas indígenas ou não, vivendo na mais absoluta miséria e o dinheiro publico sendo jorrado aos baldes na lata do lixo, por políticos inescrupulosos que com cinco ou dez reais conseguem votos em tempos de eleição. Em contrapartida, a compulsão pelo gasto de pessoas endinheiradas, que muitas vezes compram apenas para ostentar o status que o dinheiro lhes proporciona. Fica claro que as desigualdades diminuíram, mas esta muito longe de se tornar realidade.
*Economista/empresário. e mail [email protected]