Manoel Marques Cardoso*
Assistindo a declamação de uma poesia e começou a vir em minha mente o desejo que sempre tive quando adolescente de ficar rico, imaginando que somente os ricos são felizes. O decorrer dos anos me mostrou nuances muito diferentes de felicidade, posso mencionar duas que demonstraram claramente que riqueza está associada à felicidade, mas não em sua totalidade. Quando tinha de 13 para 14 anos comprei meu primeiro bem durável, uma bicicleta, vermelha como sempre sonhei.
A loja a entregou no cortiço onde morava, como eram muitas pessoas que moravam ali, fiquei esperando o caminhão chegar com minha grande aquisição. Na primeira noite dormi com a bicicleta ao lado da cama e naquela noite tive dificuldade para dormir, de tanta felicidade por ter realizado um grande desejo de criança. Já num segundo estágio, lá pelos meus 18 anos, depois de muito poupar meu parco dinheiro, comprei a prestações um carro chamado Gordini. Claro que passei quase que toda a noite debruçado na janela do quarto da pensão onde morava, No bairro de Pinheiros em SP. olhando fixamente para aquele carro. Com o passar do tempo fui comprando outros bens cuja satisfação unitária ficava menor a cada bem adquirido.
O desejo dos jovens da época era, com grande ênfase, um bom emprego, e eu, sempre enxerguei muito além de um bom emprego. O que conseguiria com esse bom emprego. Com 25 anos fui admitido numa grande empresa, situada na Avenida Paulista. Com mais ou menos três anos nessa empresa tive a sorte de receber várias promoções e passar a receber salário acima da média dos funcionários e isto me deu um certo status dentro da companhia.
O presidente dessa empresa, tinha uma filha que havia desquitado fazia pouco tempo. Depois desse episódio começou a fazer coisas extravagantes como pedir ao tesoureiro grandes somas em dinheiro para passar os fins de semana em sua mansão do Guarujá. Colocaram-na em minha sala com objetivo de, além das minhas tarefas normais, cuidar para que ela não ultrapassasse os limites da normalidade, mesmo para uma mulher extremamente rica.
Com alguns meses criamos alguma amizade e confidencialidade em relação aos problemas que a afligiam, especialmente como uma mulher destituída de beleza exterior mas com um enorme potencial pureza de sentimento e até um certo grau de ingenuidade. Chegava às segundas feiras, com ar contraído, tensa, raivosa até. Nestes dias nem bom dia falava e eu respeitava seus sentimentos. Ficava calado até que seu semblante desanuviasse. Mais tarde começava a desfiar um rosário de tristezas e se declarava uma pessoa muito infeliz, mesmo tendo mansões, carros de grande luxo, helicóptero, motorista particular, roupas caríssimas e muitas outras coisas que alguém muito rico tem, sem sequer se lembrar do valor de cada item. Sua vida, com tudo isso era muito triste e vazia.
Como ela era fluente em inglês, as vezes para motivá-la, pedia algumas explicações sobre textos que trazia das aulas, o que ela se prontificava com grande prazer, acredito que por sentir-se útil. Certa vez estávamos traduzindo a letra da musica "Feelings" e pedi a ela que traduzisse simultaneamente à leitura, de forma mais fiel possível. Ela terminou falando a letra em prantos, chorando compulsivamente. Neste momento falei francamente a ela, com todo cuidado para não ferir os sentimentos já debilitados. O que você precisa são objetivos de vida, você está aberta às tristezas e não tem espaço para alegrias e isso poderá achar numa missão qualquer, como a de dar aulas de conversação em inglês para alunos do idioma. Citei a minha classe que estava carente em conversação.
Ela aceitou e naquela mesma semana começou a dar aulas de conversação para a minha classe de 8 alunos. No inicio meio ressabiada, mas integrou-se conosco e com pouco tempo dava largas risadas com nossos erros e se transformou numa pessoa feliz, pelo menos sob nossas vistas. Com o passar dos anos conclui que o dinheiro traz prazeres, alegrias de viver são muito mais simples do que imaginamos. Porém a felicidade está muito mais ligada aos afetos e atenções do que aos bens materiais, em especial, ao dinheiro.
*Economista/empresário. E-mail. [email protected]