Isaac Duarte de Barros Junior*
Antes dos forasteiros migrantes inventarem o "cidadão adotado" e outras denominações usadas por alguns políticos de naturalidade insólita; na época pioneira, quando os colonizadores orgulhosos faziam questão de contar qual a sua origem de nascimento, costumava-se plantar pomares em volta das primeiras moradas. Normalmente, plantavam laranjais. Esses costumes foram tão importantes, que criada a "lei do espinho", velhos pés de laranja produzindo, serviam para fazer prova se uma posse era realmente antiga. Funcionava do seguinte modo, ao inspecionarem o tempo de uso dessas glebas, fiscais do governo estadual chegavam nas roças, eram recebidos pelos posseiros e numa sombra de laranjais panázios, ao invés de tomarem xícaras de café, chupavam as laranjas extraídas do pé. Feito isso, mais tarde o governo enviava por estafetas o domínio daquela propriedade, conhecido nesse tempo por título de aforamento perpétuo.
Dourados, até a metade do século passado, tinha centenas de laranjais plantados n’ algumas ruas centrais e grandes quintais. Fazia parte da tradição local, cultivar laranjais de diversas qualidades, sempre aumentando essa produção. Os límpidos córregos daquele tempo, em volta da cidade, foram batizados homenageando essa cultura cítrica. Assim, os primeiros povoadores lhes alcunharam pelo nome de laranja azeda, laranja doce, laranja lima e outros. Mas, uma controvertida "campanha estadual do cancro cítrico", usando funcionários terceirizados, cortou milhares de produtivos laranjais, fazendo os douradenses passarem a comprar essas frutas por dúzias caríssimas.
E do mesmo modo que hoje temos as mangueiras plantadas em fartura nos passeios, no seu lugar, outrora, havia os laranjais. Inconformado com esses cortes, o ex-prefeito Ruy Gomes, protestou veementemente junto ao amigo senador matogrossense Filinto Muller, argumentando que isso era um ato de politicagem dos próceres da região norte paulista, com medo da concorrência crescente, que despontava qualitativa nestas paragens. Então, os tais cortes, repentinamente pararam. Se existiu uma ação desses políticos, ou interesses escusos, certamente essa "campanha cítrica" sendo iniciada, acabou com os antigos laranjais douradenses e regionais.
Todavia, na atualidade, trezentos e vinte municípios paulistas produzem frutos cítricos, exportando-os. Entretanto, na época desses cortes, o paulista Antonio Tonnani, um empresário oriundo daqueles lados, discordava das acusações do ex-prefeito local e rebatia jocosamente os protestos de Ruy. Contrapondo, dizia satiricamente, que existiam produtores mais preparados para explorar essa cultura na sua terra natal a cidade de Olímpia, com cinqüentenários laranjais supervisionados pelos agrônomos e plantados com máquinas obedecendo esquematizados organogramas modernos.
Nesses debates acalorados dos formadores de opinião, argumentava-se que as doenças degenerativas nas pessoas começavam aos sessenta anos de idade. E no preço que ficou tabelada a dúzia de laranjas para venda, os comerciantes comentavam que futuramente somente homens ricos usufruiriam dos benefícios das vitaminas dessa fruta, antes consumida por todos debaixo dos laranjais. Para eles, os pioneiros, a vitamina ‘c’ contribuía para assegurar a longevidade. Essa fase de protestos inúteis, dos consumidores de frutas cítricas, passou. Hoje, é em muito semelhante a uma campanha oficial televisiva, que mostra os malefícios do uso em demasia de sódio.
Embora a imprensa nacional, mostrando precisão cirúrgica, desenvolva uma série de informações técnicas. Não explica para as pessoas leigas na mídia, que o sódio e o sal significam a mesma coisa. Usando métodos semelhantes, já utilizados na "campanha do cancro cítrico", reinauguram velhas useiras propagandas governamentais. Elas são muito parecidas com as daquele tempo, quando poucos sabiam o que significava vitamina ‘c’ e seus benefícios. Porém, a China com vinte por cento da população terrestre, se transformou numa segunda potencia mundial econômica, preservando milenares sistemas de plantio. Penso, que mais prudentes, deveríamos aprender um pouco mais com os amarelos...
*Advogado criminalista, jornalista. E-mail: [email protected]