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Isaac Duarte de Barros Junior*

Nas minhas modestas incursões pelo passado douradense, vasculhando a honrada trajetória dos seus primeiros povoadores, histórias das suas vidas me foram narradas pelos últimos pioneiros. Conseqüentemente, surgiram estas compilações antológicas. Convivendo intelectualmente com a lucidez quase centenária de Julio Capilé e seu irmão João Augusto, ex-prefeito desta cidade, incluí neste seleto grupo, narrativas da falecida historiógrafa Ercília Pompeu e li páginas dos escritores Suzana Arakaki, Altair da Costa Dantas entre outros autores de saltérios consagrados, conhecidos nesta região. Assim, resolvi escrever àquilo que me contaram os antigos moradores sobre a história douradense, retirando do Marcelino Pires os méritos de fundador. Em nome da verdade real, esse desbravador jamais doou qualquer pedaço de terra destinando a ser município. Afinal, o documento histórico da suposta doação, simplesmente nunca existiu. Todavia, Dourados nasceu como município em 1935. Porém, antes disso acontecer, houve um período de povoamento. Então, a pequena currutela virou Distrito do Município de Ponta Porã, participando de seu desenvolvimento, brasileiros e estrangeiros. Pessoas que aqui viveram no final do século dezenove e parte do século vinte.

Existe uma bobagem grosseira, naturalmente inventada, contando que o Marcelino Pires mandou matar Joaquim Teixeira Alves. Impossível, porque o primeiro morreu anos antes vitimado por grave enfermidade. Ademais, o ex-juiz de paz Paulo Hildebrando, havia arrendado um gado a dobrar de Joaquim, falam que não pagou a conta e ambos discutiram feio. Dois dias depois desses fatos, Teixeira Alves foi assassinado na varanda da sua residência numa emboscada, com o filho Joãozinho sentado no seu colo. Para mim, Paulo era o mandante desse crime, ou foi o próprio assassino. Nada sendo provado, tornou-se apenas suspeito.

Izidro Pedroso, nunca fez doação de área destinada a ser o cemitério municipal para dar cova a qualquer munícipe. Fez sim, para nele enterrar os falecidos de raça negra. Ocorre que antigamente, pessoas de epiderme escura, eram sepultadas a beira das estradas ou em clareiras das matas. E esses sepultamentos racistas, deixavam o fazendeiro abolicionista furioso. Mas o município, assenhoreando do local, parte da fazenda coqueiro, mudou a finalidade idealizada pelo gaúcho de Bagé. Vergonhosamente, hoje sua capela mortuária, construída na metade do século passado, está abandonada. Porque a municipalidade, pactuada de cuidar da última morada desse benfeitor, após sua morte passou a vender os terrenos destinados às sepulturas. Nesse campo santo, gostem ou não os inventores de quilombos na picadinha, estão enterrados os restos mortais de centenas de negros livres, homens pioneiros que trabalharam para o engrandecimento desta cidade. Quanto à inicial fonte de rendas douradense, vinha da Empresa Mate Larangeira gerando empregos. Entretanto, os criadores de gado eram sempre incomodados, senão vendessem carne no preço que a companhia pagava.

A ascensão douradense para a categoria de Município, embora houvesse um grande movimento separatista, foi à família Mattos liderada pelo coronel Ponciano, a principal responsável pela elevação municipal. Todavia, João Vicente Ferreira não foi o primeiro prefeito eleito e sim nomeado pelo interventor Mário Correa da Costa, governador investido por Getúlio Dorneles Vargas. E a indicação do fazendeiro João Vicente, deu-se como nome de consenso.

Melhor esclarecendo, foi o meio termo encontrado para aplacar as fogueiras das vaidades, existentes entre as correntes políticas do coronel Álvaro Brandão e o clã dos Mattos, comandados pelo coronel Ponciano. Na época da nossa emancipação, aquele destacado prócer político, era o austero prefeito da mais desenvolvida cidade no sul do estado. Ponta Porã, "princesa dos ervais", acabaria sendo a capital do novo território federal. Cujo ex-distrito, preservando o nome Dourados, geograficamente se tornaria pólo regional de importância no interior sul-matogrossense...

*Advogado criminalista, jornalista. E-mail: isane_isane@hotmail.com

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