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quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Tyson usa filme para nocautear velha imagem

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Se, como a romancista Joyce Carol Oates escreveu certa vez, “o boxe se tornou o teatro trágico da América”, seria possível escalar Mike Tyson -ex-campeão mundial dos pesos pesados que costumava se definir como “o homem mais duro do planeta”- para o papel principal.

Sim: contrariando todas as expectativas, ele continua vivo. Aos 41 anos, gordo e devendo milhões de dólares em impostos, ele está morando no subúrbio de Las Vegas há cerca de três meses, e está sóbrio – segundo Tyson, há 15 meses -, depois de anos de abuso de álcool e drogas. Ninguém esperava que fosse esse o seu futuro, alguns anos atrás. Tyson mesmo diz que “eu não esperava sobreviver até esta idade”.

Agora que isso aconteceu, o caminho que ele tem pela frente parece tanto improvável quanto desagradável, ainda que possa propiciar certa sensação de catarse. Esta semana, Tyson e seus assessores viajarão ao sul da França para o Festival de Cinema de Cannes, onde “Tyson”, um documentário de James Toback sobre sua vida, será lançado. O filme entremeia depoimentos que Tyson concedeu no ano passado, enquanto estava em reabilitação, a cenas de suas lutas, e o trabalho forçou o lutar a relembrar e a reconsiderar uma vida da qual se envergonha. “Olho minha vida agora e sinto vergonha pelo que fiz”, ele declarou em recente entrevista. “Há muita informação no filme que as pessoas não precisavam saber”.

Mas expor o relacionamento conflituoso e aparentemente impossível entre o Tyson atual e sua versão passada é parte central dos planos para relançar o antigo boxeador. O filme, acompanhado por um livro de memórias que está em estágio preliminar, co-escrito por Larry Sloman, um ghost writer que já colaborou para as biografias do polêmico radialista Howard Stern e de Anthony Kiedis, o vocalista da banda Red Hot Chili Peppers, é uma parte do esforço que, esperam os assessores de Tyson, o recolocará em contato com o público e permitirá que ele construa uma carreira de alguma espécie depois do boxe.

Toback, diretor de filmes como The Pick-Up Artist e Two Girls and a Guy, disse acreditar que o documentário, que deve chegar aos cinemas no final do ano, permitiria que as pessoas vissem o ex-boxeador, conhecido por seus surtos de crueldade no rinque e por uma muito alardeada condenação por estupro, de maneira menos negativa. “Acabo de passar o filme para Warren e Annette, e foi a primeira vez que eu o vi perto das lágrimas ao assistir a um filme”, disse Toback em entrevista por telefone. “Ela também”. (Ele está falando de Warren Beatty e Annette Bening.)

Mas Tyson parece continuar ambivalente quanto a voltar aos olhos do público, em parte porque isso suscita questões que ele mesmo não é capaz de responder. “Não sei quem sou eu”, ele disse em entrevista em sua casa de Las Vegas, uma das poucas ocasiões em que ele decidiu conversar com a imprensa longamente nos últimos anos.

“Isso pode soar idiota. Mas realmente não tenho idéia. Passei a vida bebendo e usando drogas, na farra, e subitamente isso acaba”. Ele fala na voz aguda que todos conhecem, com um traço de hesitação, mas o tom nada tem de ameaçador, enquanto ele descreve seu passado como uma seqüência de erros. É fácil, sentado ao lado dele enquanto fala em tom suave e contrito, esquecer o quanto ele foi temido um dia.

Mas será que o público ainda tem algum apetite por Tyson? Muhammad Ali, um herói olímpico muito prestigiado politicamente, foi sempre celebrado em sua carreira pós-boxe. Tyson, por outro lado, sempre foi (talvez injustamente) desconsiderado como uma simples máquina de lutar.

O fato é que quase nada parece ameaçador, em Tyson, hoje em dia. Quando ele desce de um utilitário preto e recebe o visitante à porta ou caminha pelo jardim que abriga um pequeno riacho – o único indicador de luxo em sua casa modesta -, ou quando recebe um sanduíche de um dos poucos acólitos que lhe restam e se acomoda a um sofá, a presença ameaçadora do antigo Tyson é praticamente invisível.

Foi há 22 anos, em uma noite de sábado no Las Vegas Hilton, a cerca de 25km de sua casa atual, que o gancho de esquerda de um furioso boxeador de Brooklyn se abateu contra a têmpora de Trevor Barbick aos 2min35s do segundo assalto. “No dia em que conquistei o título, fiquei tão bêbado e chapado”, ele diz, acendendo um pequeno charuto.

Aquele foi o momento de demarcação na vida de Tyson, porque o que havia acontecido antes era poético: um garoto negro e pobre de 13 anos de idade acolhido por Cus D´Amato, um lendário treinador de boxe do interior de Nova York que o transformou em campeão mundial dos pesos pesados. Mas o que veio depois se tornaria vulgar: tigres de Bengala no quintal, prisão e falência – um território conhecido que o documentário mostra, mas com um Tyson sóbrio refletindo sobre seus maus momentos.

“Eu amo os viciados”, ele diz, indicando com a cabeça um programa de TV sobre celebridades em desintoxicação. “Adoro esses caras. São as pessoas com quem quero conviver. Sabe, os ex-drogados. Acho que isso é loucura”.

Poucos meses antes de Tyson conquistar o título mundial dos pesos pesados, em 1986, ele foi entrevistado em Catskill por um repórter do Globe and Mail, um jornal de Toronto, que estava preparando um perfil do boxeador que a revista “Sports Illustrated” havia definido como “o próximo grande peso pesado”.

Tyson, aos 19 anos, disse ao repórter canadense que seu objetivo na vida era “paz de espírito, muito dinheiro e ser uma pessoa respeitada”. A maior parte do dinheiro se foi há muito tempo, mas as duas outras metas parecem factíveis, caso ele se mantenha sóbrio. “Eu só digo que não vou me drogar hoje”, afirma. “Não prometo que amanhã será a mesma coisa. Estou tentando descobrir como viver. Vivo em um mundo terrível, que eu estou tentando entender”.

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