Sete dos crimes aconteceram em MS
O Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul confirmou nesta terça-feira a condenação a 96 anos de prisão de um homem que, após matar 12 pessoas - 7 em Mato Grosso do Sul e 5 em Minas Gerais - na década de 1980, se transformou em um verdadeiro fantasma.
Nunca mais se soube notícias dele, nem vivo, nem morto, e os processos por assassinato só puderam ser julgados porque a legislação agora permite a notificação de réus por edital e a sentença a revelia. Até 2008, era preciso informar o réu pessoalmente.
O criminoso em questão é Osvaldo de Paula Silva, apelidado de Buickinho e conhecido por outros quatro nomes diferentes, todos falsos. Mineiro da cidade de Ponte Nova, hoje ele teria 59 anos. É apontado como assassino de Nilson Lionel de Lima, um menino de 11 anos, em maio de 1986, no bairro Piratininga, em Campo Grande, e como autor da “Chacina da Pena Verde”, como foi chamada à época a morte de seis pessoas em Ribas do Rio Pardo, cinco delas adolescentes.
As vítimas, Eufrázio Pereira da Silva, 46 anos, Cristiane Francisca de Souza, 12 anos, Antônio da Silva, 16 anos, Jessé Gomes de Oliveira, 14 anos, Lucimar de Campos Silva, 14 anos, e Claudiomar Campos da Silva, de idade não informada, desapareceram, no dia 31 de dezembro de 1986.
Os corpos foram encontrados, mais de dois meses depois, enterrados em lugares diferentes da Fazenda Pena Verde, onde Osvaldo trabalhava. A última vez que as vítimas foram vistas, na estação ferroviária da cidade, foi na companhia dele.
Os adolescentes estavam com Eufrázio, trabalhador rural de Campo Grande que ia prestar serviço em uma fazenda vizinha à Pena Verde e foram a passeio. Dois eram filhos dele e os outros sobrinhos e amigos. Acabaram pegando com Osvaldo uma carona para a morte.
As investigações mostraram que, de Mato Grosso do Sul, Osvaldo Paula da Silva foi para Araçatuba (SP), onde moravam os donos da fazenda, pediu dinheiro a eles, e de lá foi, de táxi, para Belo Horizonte, como relata o então delegado de Polícia Civil de Ribas, Marco Antônio Teixeira, hoje fora da polícia. “Foi o caso mais grave do período que fui delegado”, relembra. Ele chegou a dar entrevista ao programa Linha Direta, da Rede Globo sobre o matador.
Em Minas Gerais, Buickinho foi visto pela última em março de 1987, pela mãe, com quem não tinha convivência desde os 5 anos de idade. Naquele estado, ele era procurado por 5 homicídios, todos por motivos fúteis e de forma cruel.
Caso retomado - O desparecimento deixou os processos parados por anos, até a mudança da lei sobre a notificação do réu do júri. Mais de 22 anos após os crimes em Mato Grosso do Sul, em novembro do ano passado Buickinho foi condenado, em primeira instância, pelos crimes de Ribas do Rio Pardo. A Defensoria Pública recorreu, alegando que ele não poderia ter sido notificado por edital, e em julgamento realizado hoje, a 1ª Turma Criminal confirmou a sentença, nos termos do voto do relator do processo, o desembargador Dorival Moreira dos Santos.
A morte do menino de 11 anos em Campo Grande também já foi julgada na primeira instância, e a pena foi de 19 anos, por homicídio qualificado. O garoto também foi violentado, mas o crime já havia prescrito e a punição foi extinta.
A Defensoria igualmente recorreu da sentença e, embora tenha feito isso fora do prazo, ainda falta a análise pela segunda instância.
Punição sem ser punido - As condenações judiciais atingem um homem que “virou poeira”, na definição do proprietário da casa onde o menino Nilson foi morto, em Campo Grande, Armiro Feitosa, 72 anos. O aposentado estava trabalhando em Três Lagoas quando o garoto foi morto em sua casa e lembra a comoção encontrada no bairro Piratininga quando retornou e pediu o imóvel de volta ao locatário.
“Ele colocou esse homem para cuidar da casa e ele fez isso com o menino”, recorda. O inquérito aponta que Buickinho apareceu no bairro, conquistou a confiança da família que alugava a residência, recebeu ajuda para produzir artesanato e foi convidado para cuidar da casa enquanto viajavam.
Na noite de 12 para 13 de maio de 1986, o menino foi visto pela última vez, entrando no número 245 da rua General Alcoforado, na companhia de Osvaldo.
Saber do julgamento do criminoso, tanto tempo depois, provoca uma manifestação de incredulidade em Armiro. “Essas coisas que a gente não entende no Brasil. Ele foi visto zanzando por aí na época, porque não foi preso?, questiona. No túmulo de Nilson Lionel, no cemitério Santo Amaro, o aspecto do abandono traduz o sentimento de impunidade.
A família dele não foi localizada, assim como a das outras vítimas de Buickinho.
Vários nomes - O processo sobre a morte do menino revela que a polícia procurou pelo homem errado durante meses. Osvaldo usava o nome de Ronaldo Monteiro na época.
Um homônimo dele chegou a ter a casa invadida por policiais, no Rio de Janeiro, na cidade de São Gonçalo. Foi levado para a delegacia e só na unidade policial conseguiu provar que era muito diferente do suspeito procurado e que nunca havia estado em Mato Grosso do Sul.
Só quando as mortes em Ribas do Rio Pardo vieram à tona é que as informações foram cruzadas e houve o reconhecido do retrato-falado do criminoso pelos familiares do menino morto. Descobriu-se, então, que o mesmo autor do bárbaro assassinato em Campo Grande era o responsável pela chacina da Pena Verde.
A investigação das seis mortes em Ribas do Rio Pardo também começou procurando por um nome falso. Buickinho, em Ribas, se apresentou como José Carlos Cabral, apelidado de Carlão. O ex-delegado lembra que, seguindo o rastro dele até Minas Gerais, ele foi reconhecido pelo taxista que o transportou e, na polícia mineira, foi identificado como o matador que aterrorizou o estado no ano de 1981.
O próprio Osvaldo de Paula Silva confessou, ao ser preso após denuncia de um irmão, que matou 5 pessoas em um surto de ódio e mortes que percorreu 4 localidades mineiras.
Ódio assassino - A primeira vítima, em março de 1981, foi Maria Lopes, uma idosa de 74 anos. Osvaldo se desentendeu com ela, estuprou, matou e jogou o corpo em um poço de 25 metros de profundidade, na cidade de Ibirité.
Fugiu para Ponte Nova, onde a família morava, e matou um jovem de 18 anos, não identificado, durante uma briga num bar.
O motivo da terceira morte choca pelo absurdo. Osvaldo contou ter economizado dinheiro para comprar um rádio, mas foi convencido a comprar um bezerro. No dia seguinte, achou que o animal estava doente e decidiu matar o vendedor. Não o encontrou e decidiu vingar-se matando um sobrinho deles. José Marcolino da Silva, de 11 anos, foi violentado antes de ser morto, em Barbacena.
De lá, o matador foi para a região conhecida como Fecho do Funil, no município de São Joaquim das Bicas. Como era costume, procurou serviço em fazendas da região. Recebeu promessa de trabalho de Geraldo Rosa Soares, não cumprida, e acabou assassinando-o a golpes de machado.
A última vítima foi Inês Rodrigues de Oliveira, esposa de um fazendeiro que abrigou Osvaldo. Obrigado a deixar a casa, ele se irritou e resolveu matar a mulher do desafeto.
Frieza - Após todos esses crimes, Osvaldo fugiu, e chegou a ser preso, denunciado pelo irmão. Em 1983, escapou novamente, segundo consta de um manicômio judiciário.
Neste local, um laudo psiquiátrico identificou que ele não tinha doença mental. Cometia os crimes conscientemente, além de falar com frieza deles, conforme a avaliação psiquiátrica. Sua personalidade foi taxada como psicopática, com um baixo limite para frustrações. A conclusão é de que teria de ficar preso em penitenciária, dado o risco que representava.
A história da vida de Osvaldo revela traços comuns com outros matadores considerados psicopatas. Nascido em uma família de 18 filhos, com um pai “ignorante”, segundo revela trecho de um dos processos, ele cresceu em abrigos para crianças e fugiu de uma unidade da antiga Febem de Minas, aos 19 anos.
Aos 22, foi preso pela primeira vez, após cometer roubos. Passou 8 anos em prisões, das mais variadas. Aos 30, matou pela primeira vez e aos 36 já havia matado 12 pessoas.
Depois de sua fuga, sua existência é um mistério. “Pode ser que esteja morto”, afirma o defensor público Esveraldo Torres Cano, que representa Osvaldo no processo de Ribas do Rio Pardo.
Spree Killer - Consultada pelo Campo Grande News , a autora de livros sobre serial killers Ilana Casoy identificou em Osvaldo de Paula Silva um padrão que indica outro tipo de matador, o spree killer.
Esse tipo de assassino, explicou, mata em surtos, em locais diferentes, por motivos variados. É como se a pessoa tivesse, de repente, a necessidade imperiosa de tirar vidas.
Ao ser entrevistado pelo jornal Estado de Minas, quando foi preso após os crimes naquele estado, Osvaldo culpou o sofrimento. “Fiquei decepcionado com a Justiça quando fui para a cadeia. Fiquei revoltado com o que sofri lá dentro. Sei que sou uma pessoa doente, mas não perdida para sempre”, disse à época.
Hoje, há ainda três mandados de prisão em aberto contra ele em Mato Grosso do Sul.
