Liderança indígena diz que é difícil trabalhar sem o apoio de órgãos adequados no combate de problemas sociais na Reserva
16/08/2021 09h03 Por: Flávio Verão
O caso da menina Raíssa, de 11 anos, violentada sexualmente e morta em Dourados no fim de semana é o retrato de uma combinação que tem deixado rastro de destruição em muitas famílias: miséria e drogas. Na Reserva Indígena da cidade não tem sido diferente. "É preciso que as autoridades tomem alguma atitude, essas questões sociais não podem ficar sobre os ombros das lideranças", diz o capitão Gaudêncio Benites, de 41 anos.
Ele acompanhou de perto o caso e diz que ficou surpreso ao saber que o crime também teria sido praticado pelo tio da vítima e que os abusos aconteciam desde quando a criança tinha 6 anos. Primeiramente havia a suspeita que quatro menores tinham praticado o abuso, mas depois foi descoberta a participação do tio de 34 anos e de um homem de 20.
Raíssa ainda foi atirada de um paredão de aproximadamente 20 metros. No local do crime, na aldeia Bororó, há uma pedreira desativada, utilizada com frequência para uso de álcool e drogas. "É preciso encontrar uma forma de pôr um fim nas questões ilícitas que ocorrem há muitos anos em nossa Reserva. Estamos abandonados", disse Gaudêncio Benites.
A aldeia Bororó tem aproximadamente 8 mil moradores e a Jaguapiru, ao lado, cerca de 10 mil. As duas são urbanas e localizadas entre Dourados e Itaporã, no entanto, bem mais próximas a Dourados. "Todo mundo sabe que aqui [Reserva] entra de tudo e não há fiscalização. Temos vários comércios de venda de bebida alcoólica e crianças e jovens fazem compra", relatou a liderança.
Na quinta-feira ele diz que é comum ver pessoas consumindo bebida, período que se inicia os registros de violência, seja doméstico ou de brigas em toda a Reserva. Os fatos se estendem até domingo. Grande parte dos crimes ocorrem com o uso de arma branca (faca, facão), mas já houve registros de homicídios por arma de fogo.
O caso de Raíssa é tratado pela liderança indígena como complexo, pois várias pessoas da família fazem o uso de bebida. "Tem várias assim e é difícil trabalhar. Até pra gente como liderança, pois corremos risco, sofremos ameaça quando chamamos a polícia. E o trabalho é voluntário", descreve o capitão.
Capitão Gaudêncio cobra presença de autoridades na Reserva
A Reserva de Dourados é comparada como a região mais periférica de Dourados. Os problemas são grandes, de uma cidade qualquer, onde há bairros de pessoas que vivem em estrema pobreza. A Bororó, por exemplo, sempre sofreu com problema de falta d’água e nada tem sido feito para resolver o caso. Muitas famílias vivem em barracos de lona e o alimento é garantido por meio de cesta básica do governo do estado, contudo, nem todos recebem.
Gaudêncio tem tentado orientar as famílias sobre o combate à violência. Quando há entrega de cestas, carro de som é posicionado para transmitir informações gerais. Um dos assuntos sempre tratado é sobre a importância de denunciar os casos de violência, podendo ser feitas aos agentes de saúde, para as lideranças indígenas ou diretamente na polícia.
Antes da pandemia houve uma reunião entre órgãos lidados a comunidade indígena, como Funai, Ministério Público Federal, Sesai, além de Procon, forças de segurança, entre outras entidades governamentais. Gaudêncio disse que chegou a discutir uma saída para os problemas relacionados ao álcool e drogas, contudo, não avançou as discussões. Enquanto isso, a comunidade indígena de Dourados continua desamparada, sem condições básicas mínimas, como rede de água. Com população maior que quase metade dos municípios de Mato Grosso do Sul, os problemas do dia a dia são os mesmos (conhecido por qualquer autoridade), mas todos sem solução.
Vida difícil
Raíssa morava em uma casa de lona com os pais e irmãos. Também vivia na casa de parentes, todos próximos e em situação de extrema vulnerabilidade. O caso de estupro que vinha ocorrendo contra a criança não era de conhecimento das lideranças indígenas, das equipes de agentes de saúde e do Conselho Tutelar. A conselheira Alice Rocha esteve no local e acompanhou o trágico desfecho.
"Infelizmente o socorro não chegou até a nossa pequena. Infelizmente não conseguimos alcançar os seus sonhos! Infelizmente ela não foi ouvida! Infelizmente a gente só consegue ver a dor do outro quando há sangue, quando as vísceras estão expostas. Estamos fadados ao fracasso humano", descreveu Alice. "Raissa vivia em um barraco bem distante, seu choro não ecoava, embora o seu catavento rosa continuava ali tentando assinalar que ela precisava ser salva. Devemos muito a Raíssa, muito mesmo", assinalou a conselheira.