No Dia da Alfabetização, chama atenção número de brasileiros com mais de 15 anos que não sabem ler e escrever. Pandemia agravou desafio com a educação infantil
Da Agência de Notícias da Indústria
Mais de 10 milhões de brasileiros com 15 anos de idade ou mais não são alfabetizados. Desse total, 6,2 milhões vivem na região Nordeste. O levantamento é do Serviço Social da Indústria (SESI), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2019.
No Dia Mundial da Alfabetização, comemorado nesta quinta-feira (8), os números convidam a uma reflexão. Alfabetizar significa muito mais que ler e escrever. Ser alfabetizado é ter a base de todo o processo educacional para avançar nas dimensões sociais, econômicas e políticas. É exercer o direito à cidadania.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) orienta que a alfabetização ocorra entre o 1º e o 2º ano do ensino fundamental. Na rede SESI, são 25,2 mil alunos matriculados nesse período.
“Os processos de alfabetização e letramento são complexos, mas fundamentais para a inclusão social. Com a pandemia, observamos que as crianças foram bastante afetadas, os estudantes de 7 e 8 anos que deveriam estar alfabetizados não conseguiram ter acesso. Os impactos desse atraso educacional serão refletidos em anos”, destaca a alfabetizadora Débora Mesquita, do SESI David Nóvoa Alvarez, de Iranduba (AM).
Segundo a nota técnica “Impactos da pandemia na alfabetização de crianças” do Todos Pela Educação, o número de crianças de 6 e 7 anos não alfabetizadas aumentou 66,3% entre 2019 e 2021, passando de 1,4 milhão para 2,4 milhões,
A professora do 1º ano do ensino fundamental explica que, quando uma criança não é alfabetizada no período certo, há uma grande perda na sequência de aprendizagem, já que cada série é a continuação de um conhecimento previamente adquirido.

Quando uma criança não é alfabetizada no período certo, há uma grande perda na sequência de aprendizagem
Em função das fragilidades da educação básica, um alto percentual da população leva para a vida adulta déficits na capacidade de leitura, escrita e raciocínio matemático. O analfabetismo funcional, quando a pessoa reconhece letras e números, mas não consegue compreender textos simples nem realizar operações matemáticas, atinge cerca de 1/3 dos brasileiros.
“Os impactos mais visíveis para os não alfabetizados são a exclusão social, submissão e dependência de outras pessoas e até de serviços, pelo fato de não terem uma qualificação profissional, não podendo almejar empregos com remunerações melhores”, pontua a alfabetizadora de EJA Natália Muriel, do SESI Belém, no Pará.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA) é a segunda chance para aqueles que não tiveram acesso à alfabetização na idade correta. Foi o caso da Lilian Ferreira, 36 anos, estudante do SESI Chapecó, em Santa Catarina. Ela faz parte dos mais de 128 mil alunos da EJA SESI espalhados por todo o país.
Nascida em Luís Domingues, interior do Maranhão, Lilian se mudou ainda criança para São Luís, capital do estado, junto com seus pais e sete irmãos. Ela teve a infância e adolescência marcadas por momentos difíceis.
Desde cedo, aprendeu a trabalhar em casas de famílias para ajudar no sustento, deixando de lado o seu sonho de frequentar uma sala de aula.
“Eu via as crianças passando pra ir pra escola e o meu sonho era poder pisar em uma sala de aula. Eu ia em uma escola perto do meu bairro pedir pra estudar e a moça falava pra eu levar alguém ‘de maior’ com a minha certidão, mas nem isso eu tinha”, relembra.
Aos 18 anos, se mudou para Santa Catarina com o marido. Durante a trajetória profissional, ela trabalhou em serviços de limpeza, lavanderia, refeitório, até que aprendeu a soldar. A nordestina conta que praticava no horário do almoço e, aos poucos, foi adquirindo novas técnicas de soldagem e se desenvolvendo profissionalmente.
Apesar da dedicação, o diploma da educação básica começou a fazer falta. Ela perdeu duas grandes oportunidades de crescimento profissional por conta disso e foi aí que decidiu, finalmente, realizar o seu sonho de criança: frequentar a escola.
“Pra quem não tem estudo é muito ruim. Quantas vezes eu cheguei no terminal de ônibus e tive que pedir ajuda às pessoas pra pegar uma lotação. Às vezes, você consegue ajuda, às vezes, não. Eu tinha medo de me perder, porque quando a gente não sabe ler, a gente é cego”, declara.
Lilian ingressou na EJA SESI em 2021 sem conseguir escrever o próprio nome. Hoje, ela cursa o ensino fundamental e usa o que aprende no seu trabalho, o de soldadora da empresa Edge Automação Industrial.
“No meu trabalho, tudo é anotado. Hoje, na indústria, tudo que você faz, você precisa ir no computador e eu já até comecei a usar o computador. Aprendi a conferir as peças, incluir os números na planilha. Antes, eu não sabia nem qual número ia na frente ou atrás”.
O processo para alfabetizar crianças e adultos é basicamente o mesmo e as funções cognitivas são semelhantes. No entanto, a pedagoga Natália chama atenção para a necessidade de aprendizagem da criança, que se difere do estudante adulto, e exige um olhar específico, tendo em vista que ele possui uma determinada identidade, ciclos de vida e traz consigo uma bagagem de conhecimento.
“Quanto aos desafios específicos da alfabetização de adultos, o maior é a motivação, incluindo o medo do insucesso e o sentimento de inferioridade, que são fatores socioculturais. Além da realidade do cotidiano, como o cansaço, as preocupações e prioridades que disputam sua energia, atenção e concentração”, lista.

Tanto na alfabetização de crianças quanto na de adultos, é necessário clareza no processo educacional e estratégias com materiais adequados para o ensino
Já na parte motora, a menor plasticidade cerebral pode dificultar a fluência na escrita, mas isso pode ser superado com treinamento e atividades de coordenação passados pelo professor.
“Pelo fato de a coordenação motora ser abalada no decorrer da idade, o aluno desenvolve algumas interferências, se torna menos ágil e o entendimento de certos conteúdos pode ser mais complexo”, conclui.
Tanto na alfabetização de crianças quanto na de adultos, é necessário clareza no processo educacional e estratégias com materiais adequados para o ensino.