Ministério da Educação não enviou representante ao debate promovido por comissão da Câmara
22/08/2021 09h00 - Por Agência Câmara de Notícias
Especialistas em educação apontam possíveis retrocessos na alfabetização brasileira.
A crítica se volta para uma possível priorização do método fônico, que primeiro ensina os sons de cada letra, para alcançar a leitura e a pronúncia completa da palavra, a partir da mistura de sons.
Os estudiosos defendem que o processo de alfabetização deve ser diverso e levar em conta o contexto de cada sala de aula e de cada município.
O assunto foi tema de videoconferência promovida na última quarta-feira (18) pela comissão externa da Câmara dos Deputados que acompanha os trabalhos do Ministério da Educação (MEC), a pedido da deputada Tabata Amaral (PDT-SP).
A parlamentar se disse preocupada com um estudo recente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), segundo o qual a Política Nacional de Alfabetização (PNA) possui incompatibilidades com princípios norteadores da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Na reunião, a coordenadora de Programas e Projetos de Alfabetização do Cenpec, Maria Alice Junqueira, explicou que a BNCC não adota um método específico, mas metodologias sugeridas, colocando sempre o sujeito como centro da aprendizagem.
Já a PNA pode induzir à adoção do método fônico.
"O PNLD [Programa Nacional do Livro Didático] traz orientações para que as obras pedagógicas didáticas que começarão a chegar às escolas no fim do ano estejam alinhadas à Política Nacional de Alfabetização.
Quando se alinham as obras, vamos encontrar nos livros propostas de recitação do alfabeto e associação de letra inicial e sua grafia a um objeto", detalhou Maria Alice.
"Ou seja, é muito parecido com o que a gente tinha nas cartilhas antigamente.
Não é isso o que a gente entende como concepção de alfabetização, pelo menos desde os anos 1990", acrescentou.
Na avaliação do presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Luiz Miguel Martins Garcia, o letramento deve avançar das cartilhas, para incluir também o letramento digital, o pensamento crítico e o educacional.
"A alfabetização é um processo que se inicia lá na mais tenra idade, obedecendo ao percurso social, histórico e cultural da criança.
Isso está para muito além do processo reducionista de uma escrita do nome ou de algumas palavras", criticou Garcia.
"Não existe melhor método. Existe momento, existe situação. O professor, ele precisa estar pronto para praticar diferentes formas."
Tabata Amaral também defendeu a diversidade de abordagens pedagógicas. "Há uma preocupação muito grande porque, na hora em que se aponta para apenas um método de alfabetização, a gente tem um receio sobre o impacto disso nas avaliações e nas aferições de aprendizagem dos estudantes brasileiros de forma mais ampla", declarou.
O Ministério da Educação foi convidado para a videoconferência, mas não mandou representante.