No papel, a educação é um direito universal. Garantido pela Constituição, reforçado por tratados internacionais e declarado como prioridade em discursos de todos os governos. Mas na prática, no cotidiano das famílias brasileiras, estudar — especialmente até o fim — ainda é um privilégio para poucos.
Em um país com cerca de 215 milhões de habitantes, terminar o ensino básico já é um desafio.
Chegar ao ensino superior, então, beira o improvável para parte significativa da população.
Em 2025, o Brasil ainda carrega números que revelam um abismo social escancarado: mais de 9 milhões de brasileiros são analfabetos. Milhões de jovens abandonam os estudos antes do ensino médio. E, enquanto o ensino superior se expande, ele continua inacessível para quem está nas margens — geográficas, raciais ou econômicas — da sociedade.
O nível da educação gratuita também é assustador, tornando o Brasil em um país onde comprar diploma de Ensino Médio ou frequentar as aulas assiduamente, pouca diferença faz na hora de pleitear uma vaga em uma universidade pública. As chances de sucesso, em ambos os casos, são muito pequenas.
Estudar demanda tempo, estrutura e, principalmente, condições mínimas de sobrevivência. No Brasil, quase 63 milhões de pessoas vivem com renda inferior a R$ 665 por mês, segundo o IBGE (linha da pobreza atualizada para 2024). Em muitas casas, a renda mal cobre alimentação básica, transporte e gás de cozinha.
Nessas famílias, o estudo muitas vezes cede lugar à urgência do trabalho infantil, ao cuidado com irmãos mais novos ou à falta de recursos para comprar material escolar e roupas adequadas. A escola vira uma etapa impossível de manter quando o dia a dia é dominado pela sobrevivência.
Evasão escolar, nesse contexto, não é uma escolha pessoal — é uma consequência estrutural. Em regiões como o Norte e o semiárido nordestino, há cidades com índices de abandono escolar acima de 30% no ensino médio.
Apesar de proibido por lei, o trabalho infantil ainda é uma realidade no Brasil. De acordo com o IBGE, mais de 1,7 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham, muitas vezes em atividades perigosas ou clandestinas.
Esse trabalho precoce não apenas compromete o desempenho escolar, como interrompe trajetórias educacionais inteiras. Uma criança que começa a trabalhar aos 12 anos dificilmente concluirá o ensino médio aos 17. Em muitos casos, o retorno à escola na vida adulta não acontece.
A qualidade da escola pública também é fator determinante. Enquanto parte dos estudantes brasileiros frequenta escolas com acesso à internet, biblioteca, merenda, ensino em tempo integral e professores qualificados, outra parcela lida com salas superlotadas, goteiras no teto e ausência de infraestrutura básica.
Segundo dados do Inep:
Essa desigualdade estrutural contribui para a defasagem escolar e o desinteresse de alunos que, desde cedo, percebem que o ambiente onde estudam não oferece as mesmas oportunidades de quem está nas zonas centrais ou em escolas privadas.
Embora o Brasil tenha reduzido o analfabetismo ao longo dos anos, ele ainda persiste com força entre os mais pobres e idosos. Segundo a Pnad Contínua 2024:
Esse analfabetismo funcional atinge também os que frequentaram a escola por poucos anos: são brasileiros que leem palavras, mas não compreendem um parágrafo inteiro — e tampouco conseguem interpretar textos no cotidiano, como um contrato de trabalho ou um manual de remédio.
Apesar dos programas de inclusão como ProUni, Fies e as cotas raciais e sociais, o diploma universitário ainda está fora do alcance da maioria. Dados do IBGE de 2025 mostram que apenas 20,5% da população adulta brasileira possui ensino superior completo.
Além dos custos com mensalidades (quando o curso não é gratuito), a realidade da maioria dos estudantes é marcada por:
Essa realidade se acentua nas universidades públicas federais, onde, mesmo após o ingresso, muitos estudantes abandonam o curso por falta de permanência estudantil: auxílio moradia, alimentação ou bolsas.
Segundo o Todos Pela Educação, 46% dos jovens brasileiros de até 19 anos não concluíram o ensino médio na idade certa. Entre os mais pobres, a taxa de conclusão é ainda menor.
Entre os principais motivos de abandono:
Há um padrão: quanto mais pobre a região, maior a taxa de abandono; quanto mais isolada a comunidade, menores as chances de retorno.
As consequências da exclusão educacional são duradouras. Quem não conclui o ensino médio, por exemplo, tem acesso limitado ao mercado formal, fica fora de concursos públicos e tem rendimento, em média, 60% menor que quem conclui a educação básica.
A desigualdade educacional também se reflete na saúde, na mobilidade urbana, na participação política e até no acesso à cultura. A educação forma não só profissionais, mas cidadãos — e o déficit educacional compromete o desenvolvimento do país como um todo.
Muito se fala em meritocracia, em esforço individual, em “fazer por onde”. Mas pouco se reconhece que, para milhões de brasileiros, estudar com regularidade e concluir os estudos é quase impossível. Não por falta de vontade, mas por falta de estrutura, apoio e segurança.
Enquanto o acesso à educação de qualidade for privilégio de poucos, não haverá igualdade real de oportunidades no país. O Brasil precisa, urgentemente, transformar o direito à educação em realidade concreta — e não apenas em discurso.