Guilherme tinha apenas quatro anos quando a vida, até então tranquila, foi tomada pelo inesperado. Em menos de um dia, passou de um menino saudável e cheio de energia para um corpo paralisado, rígido, que já não respondia aos seus comandos. Os médicos chamaram pelo nome técnico, síndrome de Guillain-Barré, e, junto dele, apresentaram um futuro duro: a possibilidade real de que ele nunca mais voltasse a andar.
Mas o que eles não sabiam é que, anos depois, com o trabalho dedicado do centro de equoterapia do Sindicato Rural de Maracaju e o apoio do Senar/MS, Guilherme voltaria não só a caminhar, mas a correr, brincar e defender gols no futebol da escola como qualquer criança.
“Eu vi o meu filho renascer. Cada movimento era uma vitória. Não há palavras para expressar isso, é praticamente sobrenatural”, diz Samara Marques, mãe de Guilherme.
Na madrugada em que tudo começou, Samara percebeu algo estranho: o filho dizia que não sentia as pernas. Horas depois, as mãos estavam rígidas, e ele chorava sem parar, sem conseguir se mover. A primeira ida ao hospital trouxe apenas um diagnóstico equivocado de “dor de crescimento” e a sensação de que não havia motivo para se preocupar. Mas, na manhã seguinte, a realidade mostrou que era algo muito mais grave.
O que se seguiu foi uma corrida contra o tempo. Ainda em menos de 24 horas, Guilherme foi levado para Campo Grande, onde já apresentava comprometimento nos órgãos internos e movimentos reduzidos a apenas um leve piscar de olhos. Foi preciso iniciar um tratamento agressivo, com imunoglobulina, um medicamento derivado do soro do cavalo, para tentar conter o avanço da doença.
“Era como se eu tivesse um bebê de tamanho maior. Ele não andava mais, ´tinha que usar fralda, ficava só na cadeira de rodas e tínhamos que carregar ele no colo para todo lado”, relembra a mãe.
Quando recebeu alta, os médicos foram diretos: a recuperação dos movimentos era improvável. Guilherme foi considerado, na prática, tetraplégico. Mas Samara não desistiu. Começou a procurar terapias, tratamentos alternativos, qualquer recurso que pudesse trazer de volta a vida que o filho conhecia. Foi então que uma médica lhe falou sobre a equoterapia. O nome era novo, mas a esperança se reacendeu.
Samara pesquisou na internet, assistiu a vídeos e descobriu que, na própria Maracaju, o Sindicato Rural, com apoio do Senar/MS, oferecia o tratamento gratuitamente. “Até que eu vim aqui no Sindicato Rural, mostrei o laudo do Guilherme e ele foi admitido, fiquei ansiosa pela primeira aula”, conta.
A primeira sessão foi inesquecível. Lá estava ele, frágil, dependente, sentado com apoio sobre o animal. E então, discretamente, um dedo se moveu. “Foi um choro para mim, para minha família”, diz a mãe. Para qualquer outra pessoa, poderia passar despercebido. Para Samara, para a equipe e para todos que acompanharam, foi como o gol da vitória no último minuto.
Na terceira sessão, o improvável se repetiu. Guilherme já conseguia sentar sozinho no cavalo, mantendo o equilíbrio que antes parecia impossível. Pouco tempo depois, pedalou uma bicicleta, feito que trouxe de volta parte da independência. Vieram o andador, as órteses, e, com cada passo, a certeza de que o corpo dele estava reaprendendo a ser livre.