Tabagismo é responsável por mais de 20% das mortes por câncer

Segundo o médico oncologista e cirurgião Aroldo Boigues, o quadro é alarmante já que muitos tipos de cânceres são passíveis de prevenção ou diagnóstico precoce

26/10/2018 07h39 - Por: Maria Lucia Tolouei


 
Médico oncologista e cirurgião Aroldo Boigues, de Dourados Médico oncologista e cirurgião Aroldo Boigues, de Dourados

Mais de 50% dos pacientes que procuram um especialista em câncer chegam com a doença em estágio avançado, diferentemente do que acontece nos países desenvolvidos. Segundo o médico oncologista e cirurgião Aroldo Boigues, o quadro é alarmante já que muitos tipos de cânceres são passíveis de prevenção ou diagnóstico precoce.

Ele explica que o câncer é um conjunto de mais de 100 doenças, cujas características principais são multiplicação desordenada das células e a capacidade de invasão e disseminação para outros órgãos. Depende de inúmeros fatores de risco, como tabagismo, alimentação rica em gorduras e carnes, pouca ingesta de frutas, verduras e legumes, consumo excessivo de alimentos e de bebidas açucaradas, além de obesidade, alcoolismo, sedentarismo, infecção por certos tipos de vírus (HPV, Hepatite B e C), entre outros. Ao contrário do que muitos imaginam, a hereditariedade é responsável apenas por 15% dos casos.

O tabagismo é o fator de risco mais importante, responsável por 22% das mortes por câncer. "Hoje o câncer não deve mais ser considerado uma doença incurável, devemos enfrentá-lo. Todos estão susceptíveis ao seu desenvolvimento ou já vivenciou algum caso na família, assim a conscientização da população sobre os principais fatores de risco, formas de prevenção para evitarmos o seu desenvolvimento e diagnóstico precoce, é o que realmente fará a diferença", diz Boigues.

Para o oncologista, é preciso encarar o câncer como mais um obstáculo a ser enfrentado. "Deve-se lutar e superar todas as dificuldades encontradas durante o tratamento, e buscar o conforto na religião. Todos passamos por circunstâncias difíceis na vida e há duas maneiras de sair delas: como sobreviventes ou como vítimas. Sobreviventes são aqueles que, apesar das dificuldades e sofrimentos, mantêm seu poder pessoal e superam as dificuldades. Vítimas são aquelas que, ao sofrerem, passam a se sentir impotentes e derrotadas", enfatiza Aroldo Boigues.

Confira a entrevista:

Qual é a diferença entre célula cancerígena e as demais?

O câncer é um conjunto de mais de 100 doenças, cujas características principais são: multiplicação desordenada das células e a capacidade de invasão e disseminação para outros órgãos (capacidade de metastatização), características que não são encontradas nas células normais.

Estresse, má alimentação, tabagismo, alcoolismo e outras drogas podem detonar ou piorar o quadro?

Estamos falando de uma doença multifatorial, ou seja, seu surgimento depende de inúmeros fatores de risco, os quais chamamos de carcinógenos. Os principais carcinógenos são: tabagismo, maus hábitos alimentares (ingesta excessiva de gordura e carnes, pouca ingesta de frutas-verduras e legumes), obesidade, alcoolismo, sedentarismo, excesso do consumo de alimentos e bebidas açucaradas, infecção por certos tipos de vírus (importante falarmos do HPV, Hepatite B e C), etc. Ao contrário do que muitos imaginam, a Hereditariedade é responsável apenas por 15% dos casos. O tabagismo é o fator de risco mais importante, responsável por 22% das mortes por câncer.

Que percentual da população é afetada e quais os tipos mais comuns no homem e na mulher? Certos cuidados podem ajudar?

Hoje temos um aumento progressivo nos casos novos de cânceres diagnosticados anualmente, isso se deve principalmente ao envelhecimento da população – aumento da expectativa de vida, além do maior contato aos fatores de risco (carcinógenos). Sabemos que 55% dos homens e 33% das mulheres desenvolverão algum tipo de câncer durante sua vida. O câncer é a 2ª causa morte no Mundo, 1 em cada 6 mortes é decorrente ao câncer. Hoje no Brasil são diagnosticados anualmente 635 mil pessoas com câncer, sendo o câncer de pele não melanoma o mais comum, seguido no sexo masculino pelo câncer de próstata, pulmão, colorretal e estômago; no sexo feminino pelo câncer de mama, colorretal, colo do útero e pulmão.

Algumas correntes afirmam que o câncer é a doença do "ressentimento", ou seja, supostamente acometeria pessoas que não conseguem se livrar do 'passado'. O que o senhor diz disso?

O câncer é considerado uma doença multifatorial, com a participação de inúmeros fatores para seu surgimento, assim podemos considerar que o aspecto emocional tenha alguma participação, mas cientificamente não conseguimos comprovar seu papel, porém acredito que associado a outros fatores também contribui para o desenvolvimento da doença.

Já ouvi, muitas vezes, que o câncer pode ser contagioso. Isso é verdade?

O câncer não é uma doença contagiosa, assim não precisamos ficar com receio em oferecer todo carinho necessário, seja com forte abraço, beijo ou qualquer contato físico a quem estiver enfrentando a doença.

Mas, se o câncer estiver associado a doenças oportunistas?

Existem alguns tipos de cânceres associados às doenças infecciosas que causam imunossupressão, mesmo assim o câncer não é contagioso.

Câncer tem cura ou é morte anunciada? Que sinais devem ser investigados?

O câncer é uma doença com grande possibilidade de cura, principalmente quando diagnosticado precocemente. E hoje com o grande avanço nas formas de tratamentos, mesmo nos casos avançados temos atingido a cura e importante melhora da sobrevida.

Consideramos como sinais de alerta: alteração do funcionamento intestinal, presença de sangue nas fezes ou na urina, sangramento vaginal após menopausa, emagrecimento sem motivo específico, dor em alguma parte do corpo que piore progressivamente tornando-se limitante e sem fator específico, anemia inexplicada, surgimento de algum nódulo no corpo que se apresente endurecido e com aumento progressivo, surgimento de nódulo na mama, dificuldade para engolir progressiva, etc Devemos ficar atentos, e na presença de algum deles temos que procurar atendimento médico.

Quadros crônicos, como hipertensão, diabetes, doenças hepáticas, são preocupantes neste contexto?

Pacientes portadores de diabetes possuem risco para desenvolvimento de certos tipos de cânceres, da mesma forma que os portadores de certas doenças hepáticas, assim o controle destas doenças chamadas crônicas é melhor forma de prevenir suas complicações.

Que tipos de exames, hoje, a medicina dispõe para detectar a doença. Quais os percentuais de acerto e erro?

Os cânceres mais comuns e os que mais matam, são passíveis de prevenção, com o objetivo de evitar seu surgimento com mudanças de hábitos e vícios, ou através da realização de exames específicos para diagnosticarmos em sua fase mais precoce.

Como exemplo de prevenção primária, ou seja, evitar o surgimento da doença, temos o câncer de pulmão onde o tabagismo é responsável por mais de 95% dos casos. Assim se eliminarmos o tabagismo, etilismo, a má alimentação, o excesso de peso e vacinarmos contra o vírus HPV e da Hepatite B, conseguiríamos evitar de 30% a 50% dos casos de câncer atualmente. Como prevenção secundária, ou seja, exames que permitem o diagnóstico precoce de alguns tipos de cânceres, temos: mamografia, colonoscopia, preventivo de colo do útero, exame da próstata, etc.

A saúde pública tem infraestrutura para atender plenamente os pacientes ou muitos acabam morrendo na fila dos medicamentos, das cirurgias, entre outros motivos?

Infelizmente ainda hoje a saúde pública deixa muito a desejar quando falamos em diagnóstico e tratamento oncológico, principalmente em diagnóstico precoce e início de tratamento. A maioria dos pacientes não tem acesso a exames para diagnóstico e quando recebem o diagnóstico temos a demora no inicio do tratamento. O agravamento da situação é maior ainda quando nos deparamos com situações onde é necessário o uso de medicamentos específicos e modernos que na grande maioria não são disponibilizados aos pacientes do SUS, mesmo estando aprovados pelos órgãos responsáveis.

O que o setor de oncologia tem feito para esclarecer a população e orientar à prevenção e detecção precoce? Campanhas junto às escolas poderiam ajudar?

O acesso à informação sobre a doença com esclarecimentos a população geral sobre meios de evitar seu surgimento ou os exames indicados para o diagnóstico precoce, é o que realmente mudaria o cenário atual da doença, e a educação em saúde deve iniciar desde a infância, assim campanhas de prevenção nas escolas iriam impactar diretamente nas residências.

Durante os chamados "Dia D" contra o câncer, com que quadros se deparam os oncologistas em Dourados?

O cenário em Dourados dos casos mais comuns de câncer não difere do nacional, onde o câncer de pele exceto melanoma são os mais comuns, seguido no sexo masculino pelo câncer de próstata, pulmão e colorretal, e no sexo feminino pelo câncer de mama, colorretal e colo do útero. Observamos com estes dados que a grande maioria dos cânceres são passíveis de prevenção ou diagnóstico precoce, porém infelizmente na prática clínica atendemos mais de 50% dos pacientes com a doença em estágio avançado, diferentemente do que acontece nos países desenvolvidos.

Considerações finais

Hoje o câncer não deve mais ser considerado uma doença incurável, devemos enfrenta-lo. Todos estão susceptíveis ao seu desenvolvimento, ou já vivenciou algum caso na família, assim a conscientização da população sobre os principais fatores de risco, formas de prevenção para evitarmos o seu desenvolvimento e o seu diagnóstico precoce, é o que realmente fará a diferença. Deve-se encarar o câncer como mais um obstáculo a ser atravessado, deve-se lutar e superar todas as dificuldades encontradas durante o tratamento, e buscar o conforto na Religião. Todos passamos por circunstâncias difíceis na vida, e há duas maneiras de sair delas: como sobreviventes ou como vítimas. Sobreviventes são aqueles que apesar das dificuldades e sofrimentos mantêm seu poder pessoal e superam as dificuldades. Vítimas são aquelas que ao sofrerem passam a se sentir impotentes e derrotadas.



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